? - Terra - Matheus e Paulo PT 5

Mal podia acreditar que chegaram. Depois de mais de um mês andando. Ainda mais porque não criava calos nos pés. O fato de ser exo ajudava e pensava que por ser guardião também. Antes da pergunta surgir em sua mente, Fenrir avisou eu não te ressuscitaria com calos, fica tranquilo. O silêncio perdurou com um leve sorriso de Matheus. Cada pergunta... Matheus riu para si mesmo. 
— Espero que ninguém tenha me ouvido falar que era apenas um mês. — Paulo lembrava-se da briga da reunião com os Senhores do Ferro.
— Eu rezo todo dia por isso. Isso e para aquelas nuvens negras não virem pra cá. — Matheus apontava para a escuridão no horizonte.
Matheus estava "liderando" a caminhada. Andando uns metros a frente, não viu se Paulo concordou ou não, mas provável que sim.  
Os prédios deveriam ser muito bonitos. Ao menos na era dourada.  Os automóveis estavam arranhados, amassados e inutilizados. As cores alegres riscadas pelas garras dos decaídos e pelo tempo. Os arranha-céus estavam rachados, quebrados e deteriorados. Ameaçavam cair. As vias da cidade estavam repletas de estilhaços de vidro destes mesmos arranha-céus. O chão não fugia muito das rachaduras. Um corte irregular vinha do leste e ia para o oeste. Matheus e Paulo tiveram que usar o salto propulsionado para poder chegar do outro lado. Os postes de iluminação funcionavam, mas sem parar. Sabe se lá por quanto tempo mais. 
O preconceito do exo o fez pensar que a cidade estaria um verdadeiro lixão. Entretanto o cheiro não era desagradável, as árvores e as plantas já haviam tomado conta de boa parte das estruturas em volta. A natureza não tinha mais interferência do ser humano. Talvez só a interferência dos decaídos agora. Matheus observava as estruturas de energia da cidade, fios subterrâneos conectando tudo sob seus pés. A sinalização não existia, possível que fosse por projeção tecnológica, assim como os tablets. O silêncio ensurdecedor daquele monumento de cidade só deixava Matheus com saudade da primeira cidade.
Toda aquela observação em volta, entretanto o que seus olhos procuravam ignorar eram, na verdade, os esqueletos dentro de carros e lojas.
Vácuos oculares e sorrisos sem expressão. Podia construir a lógica da cadeia de acontecimentos. A destruição e fim de tudo, pessoas correndo desesperadas, medo à flor da pele e o instinto de sobrevivência. 
Encontrou um esqueleto segurando algo menor. Outro esqueleto. Ele o abraçava. 
Seu olhar parou e não percebeu quanto tempo passou até Paulo tocar seu ombro.
— Vamos? — O Exo virou-se assustado. Paulo o encara. Ele balança a cabeça. 
Os passos começaram rápido, mas suavizaram com o tempo. Engoliu um seco enquanto concentrava-se novamente na tecnologia.
— Segundo os mapas, o hospital fica a dez quilômetros daqui. — Disse Matheus em voz alta, espantando as almas penadas — Chegaremos quase a noite e poderemos descansar. 
— Viu alguma coisa que conseguiremos utilizar para transportar os medicamentos? — Matheus percebeu que Paulo carregava muito mais que sua bolsa, carregava preocupação. 
Matheus pensou antes de responder, mas não poderia florear a situação.
— Eu poderia avaliar ao menos dez carros diferentes com dez problemas cada. — Tentou ser o menos baixo astral possível. — Teria que desmontar todos eles e construir um carro novo, do zero. 
O silêncio era apenas quebrado pelos passos no concreto e em vidro rachando. 
— Então nós...
— Não é impossível — Matheus começou a maquinar os pensamentos. — Mas precisaria de tempo e de ajuda. Construí uma nave com Revân na lua, consertar esses carros pode não ser problema.
— Quanto tempo... — Paulo tinha o rosto preparado para levar um tapa.
— Não adianta eu te dar prazo de uma coisa que eu não sei. — Matheus disse seco. — E se ficarmos ansiosos vai ser pior. Entenda que teremos que trabalhar com paciência e com as probabilidades. Duas semanas, um mês... três meses...
Mais pensamentos atravessaram a mente de Matheus, mas achou por melhor deixar ser apenas pensamentos. Pelos próximos quilômetros os passos conversariam entre si, mas apenas eles. O exo deixaria suas palavras rodearem também a mente de Paulo. O titã desperto possuía a habilidade de se adaptar a situações, porém precisava de informações para recalcular expectativas, sentimentos e estratégias. Não gostava de jogar um balde de água fria nos planos do amigo agora que eles chegaram finalmente na cidade e estavam mais próximos do hospital do que nunca, mas a realidade era implacável. Considerar que as circunstâncias estariam contra eles era o correto.
Era noite. A lua nova brilhava no céu. A placa quebrada ainda tinha energia, mas para poucas letras.
— Sov? — Paulo olhava a palavra e era de difícil pronúncia.
— Pra nossa sorte temos muitos bilíngues na cidade. Logo mais estaremos aprendendo todas as outras línguas da era dourada.
— Revân falava algo sobre isso — Paulo deu um passo na calçada, havia uma mini escada que levava para a entrada do hospital. — Acha mais provável que criemos uma língua nova para nos comunicarmos uns com os outros. 
Matheus balançou a cabeça. O local estava iluminado. E, um pouco incomodo, como era branco. Cadeiras azuis e televisores apagados. Haviam esqueletos sentados e caídos no chão. O exo respirou fundo. Olhou para a placa e cada palavra tinha uma cor. 
— As áreas do hospital — Paulo apontava para a cor e então apontou o chão. — Cada cor quer dizer uma coisa.
— Onde estão os arcanos nessas horas? — Matheus riu e sentiu um arrepio. — Devem estar falando de nós agora também.
Paulo riu. 
— Vamos montar acampamento aqui. — Paulo tirou a mala das costas e deixou nas cadeiras. — Este lugar em especial parece muito mais conservado.
— Como...— Matheus colocou a mochila junto a de Paulo. — Se alguém estivesse aqui. 
Paulo cerrou os olhos e sacou o fuzil de assalto. Sem ficar em posição de combate.
— Olhos abertos, pode haver senhores da guerra remanescentes. — Matheus puxou seu fuzil de batedor. 
— Que sejam iguais ao Shaxx. — Paulo engatilhou a arma.
O chão limpo mostrava três linhas. Vermelha, amarela e verde. Cada uma apontando em uma direção diferente. Três corredores, o mais longo era o amarelo, indo em um corredor enorme reto com várias portas de madeira marrom de mogno. E o que parecia no final do verde começava outra cor. 
— Primeiro Amarelo e verde. Depois vermelho. — Paulo começou a ir em direção ao amarelo. 
— Por que? — Matheus levantou a sobrancelha de metal.
— Vermelho parece perigoso. Vamos vê-lo juntos.
Sem mais detalhes, Paulo continuou andando e abrindo as portas. Matheus virou-se e olhou para a porta da frente de relance, mas foi o bastante para ver dois pontos azuis claro e um vermelho borrado. Ele parou e permaneceu olhando, fixo onde sua visão não podia. Não foi minha imaginação. Matheus se endireitou e começou a dar passos de volta para a entrada. Sua visão então ajustou-se em um vermelho claro e o branco das costas. A pessoa na frente do outro exo o viu e esbugalhou os olhos. Ela virou-se. Olhos terrivelmente azuis. 
— Não queremos problemas. — Formal. A voz era firme. Ela se endireitou. Parecia que ia fazer um discurso. — Precisamos apenas de alguns medicamentos.
— Tenha calma, não terá problemas — Matheus verificou que ela não o olhava diretamente nos olhos. A arma. Fenrir disse. Matheus colocou o equipamento na trava das costas. — Sou guardião da primeira cidade.
Aquelas palavras não pareceram fazer diferença. Ela não sabe o que é isso ou finge que não sabe. Matheus a viu relaxar um pouco, mas apenas um pouco.
— Sou Lakshmi. Lakshmi 2. — Ela se adiantou com a mão sem perder a postura. — Esta é Violeta.
— Matheus 10. — Ele apertou a mão e acenou para a humana atrás dela. 
A moça suavizou as expressões, mas observava com atenção. Não parecia armada, mas havia algo na postura corporal que estava prestes a atacar sobre qualquer pretexto. Ou correr. Com a visão periférica conseguia enxergar Paulo voltando aos poucos, devagar, observando Matheus conversando com alguém. Matheus fingiu coçar a cabeça para fazer um sinal para Paulo segurar a posição. Daquele ponto havia um pilar na visão periférica de Lakshmi que impedia que o enxergasse, até entender a real situação, era melhor tê-lo ali. Rezou internamente para que Lakshmi não percebesse. Paulo parou e Matheus via a postura dele sem mais movimentos. Ótimo. 
— O que é primeira cidade ou guardiões? — Ela apertou os olhos de metal.
— O viajante está sobre nós em uma cidade enorme, refúgio de toda a humanidade. Ou o que restou dela. — Matheus esforçava-se para lembrar o que Revân falava. — E guardião sou eu. — Ele piscou algumas vezes.
Um sonoro "hum" foi emitido da exo. Ela pareceu não entender a princípio.
— Temos alguns em nosso grupo. — A moça atrás dela disse. — Eles nos ajudam.
Lakshmi virou-se e algo nas expressões de Violeta disseram a Matheus que não gostou do que viu. 
— O culto a guerra futura nos salvou e é isso. — Ela disse como se colocasse um ponto final no assunto. — Eles estão nos levando para um abrigo longe daqui.
— O culto a guerra futura é uma facção da cidade. — Matheus relaxou finalmente. — Estou aqui em missão pelos Senhores do Ferro para encontrar remédios e suprimentos. 
Lakshmi piscou várias vezes e respirou fundo. Pareceu diminuir com o sopro. Matheus sorriu.
— Eu sinto muito pela desconfiança, já presenciei coisas horríveis e todo cuidado é pouco. — Ela parecia sorrir com os olhos agora. 
— Paulo. — O titã se aproximou aos poucos com as mãos levantadas. — Esta é Lash... Laki... Lami...
Matheus estralava os dedos e olhava para baixo. Violeta colocou as mãos sobre a boca, soltando o ar aos poucos, mas a gargalhada dela veio.
— Lakshmi. — A exo não parecia se divertir.
Paulo riu um pouco e Matheus, se pudesse, estaria vermelho.
— Isso, isso aí que você disse. 
— Muito prazer. — Paulo se limitou a dizer.
Apertaram as mãos. 
— Violeta — Disse a humana perdida entre risadas.
— Muito bem — O desperto parecia mais animado — De onde vocês vêm?
— De Londres. Infelizmente não existe mais. — Lakshmi respirou fundo.
— Claro, o grande colapso e tudo...
— Não. — A interrupção foi abrupta. Lakshmi se fosse guardião, com certeza seria um arcano. — Os decaídos a incendiaram.
Os guardiões focaram na exo pomposa. A tensão no ar era palpável. 
— Eles nos seguem e precisamos ir. — A exo fez um sinal para Violeta — Se nos dão licença.
Ela mal andou dois passos.
— Iremos ajudar — O titã desperto disse. 
O titã exo fechou os olhos. E lá vamos nós. 



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