Palamon - Terra - Faraday e Lucas - PT. 3
A defesa da cidade não seria tarefa fácil. Um quadrado gigante, um guardião em cada espaço do quadrado. O que fazer se os decaídos vierem pelas quatro pontas?
Todos aqueles livros sobre estratégia, para que eles serviam agora? A pouca "mão de obra" qualificada deixava os nervos de aço de Faraday a flor da pele. Cuidar de si próprio era mediano, cuidar de um dos seis frontes era difícil, mas esse cerco de Palamon seria caótico. Nem queria pensar que estavam em menos guardiões.
Conheça teu inimigo e você e sua chance de vitória será de cem batalhas. Não parecia que estava para vencer uma batalha, mesmo se conhecendo e conhecendo o inimigo. Eu me conheço mesmo...
— Precisamos fazer torres em cada ponta da cidade, assim vocês podem nos apoiar quando necessário e se proteger ao mesmo tempo. — Lucas apontava para um projeto em seu tablet elaborado pelos dois, Faraday e ele, para aquela situação em específico.
O tablete mostrava uma torre mais reforçada, da própria madeira da floresta, que teria alguns poucos buracos.
— E vamos reforçá-las com as próprias madeiras, e uma chapa de aço entre elas, já que o metal não há em abundância. — Faraday disse, olhava em volta para mudança do tempo. — Assim como Da Vinci fez com os navios de guerra.
No raiar do dia, a luz do sol não chegou, dificultando até descobrir se era dia ou noite. No lugar de um céu azul, uma nuvem enorme cinza claro que cobria o céu inteiro. Era meio dia, dez minutos a mais ou a menos, mas pouca luz atravessava aquele muro que transformava-se em ébano. O vento mudou, as folhas das arvores caiam e misturavam-se em redemoinhos. Palamon parecia menos convidativa a cada minuto que passava.
— E vocês...? — Magno estava coçando o queixo debaixo das barbas e tinha as sobrancelhas peludas arqueadas.
— Vamos ficar entre uma ponta e outra do quadrado. — Lucas projetou o mapa para fora do tablet. Isso assustou algumas pessoas.
— Imagina quando eu lançar uma Bomba nova. — Faraday sussurrou.
Lucas sorriu, mas não deixou isso influenciar a sua explicação.
— Serão quatro de nós, um em cada espaço do quadrado, iremos cavar trincheiras nas pontas do quadrado, tanto para ajudar vocês a acertarem quanto para o próprio atraso dos inimigos. — O caçador explicava enquanto ia apontando para o mapa projetado.
— Faremos mourões de madeira, fazermos pontas nelas para atrasar ainda mais o avanço. — Faraday cruzou os braços e ainda observava o céu nublado. — A maior ameaça vão ser as naves e os tanques aranhas.
— Isso se trouxerem. — Faraday notou um tom de bronca na voz do amigo caçador.
Fez uma anotação mental para pedir desculpas a Lucas. Quando seu olhar voltou-se as pessoas, notou os olhares virarem para ele em súplica. Não informar as pessoas demais.
— Como aqui é um local pequeno, é possível que eles não pensem que estariam tão preparados. — O caçador tinha um sorriso amarelo.
— E se trouxerem? — Perguntou Ernani. Ele parecia preocupado.
Lucas virou-se para o Exo como "agora resolve isso".
— Então nós vamos apresentar-lhes isso. — Faraday esticou a mão e seus dedos concentraram o poder do vácuo.
Ficaram ainda mais surpresos. As sobrancelhas do exo subiram tão rápido quando desceram.
— A dádiva do Viajante irá nos ajudar a defendê-los, eu prometo. — Isso fez os guardas da cidade e algumas pessoas em volta relaxarem um pouco.
O rosto de Lucas transformou-se em um parabéns. Faraday ficou contente, finalmente conseguia, mesmo que minimamente, ler as expressões.
Algumas pessoas se afastaram. Ficaram Ernani, Magno e um homem alto, calvo e barbudo. Seus braços eram musculosos.
— Vocês só têm nos trazido problemas até agora. — cuspiu no chão.
— Nós...? — Faraday levantou uma sobrancelha de aço, Lucas levantou-se e apontou a mão aberta para o Exo.
— Entendo a sua raiva, mas...
— Só resolvam isso e vão embora, o poder de vocês provocam forças maiores. — E antes que os guardiões pudessem argumentar, deu as costas e foi embora.
O vento soprou e um leve trovão percorreu a floresta.
— Entenda o velho Lester — Magno disse, depois pigarreou para limpar a garganta. — Está há muito tempo aqui e deixar vocês no comando o deixa aflito.
— Ele quer proteger a família. — Ernani olhou pra eles. — E nós queremos proteger a todos. Acho que entendem isso.
Lucas e Faraday acenaram com a cabeça.
Se encaminharam para fora de Palamon. Faraday com um machado e Lucas com uma pá. Embora o Exo tenha dito que não era necessário, os moradores insistiram que ele usasse. Era em respeito a floresta. O Exo não entendia isso, mas respeitaria o que os moradores lhe diziam.
— O segredo? — Lucas já estava com os pés quase enterrados.
— O nosso tempo aqui se estendeu mais um pouco. — Faraday cortou uma arvore enorme num único movimento. Ela caiu quando lhe aplicou um leve empurrão — Não parei pra pensar sobre, a cidade tem ocupado minha mente.
Lucas começou a rir enquanto o movimento com a pá era continuo. Balançava a cabeça negativamente. Algumas arvores derrubadas depois, alguns moradores vieram com um carro de carga de madeira pegá-las para retrabalhar nas torres que eles haviam planejado. O suor de Faraday nem pensava em brotar enquanto ele colocava a arvore no carro e os moradores levavam, eles tinham que vir em três.
Algum tempo depois as únicas coisas que via era a trincheira aumentar. A terra sendo lançada de um lado para o outro e avançar. A pá de vez em quando no alto.
— É uma pessoa, não é? — Faraday tinha parado de cortar, apoiava o machado no chão.
— O que? — Lucas parou, a trincheira tinha dois metros de profundidade e quarenta de largura. Ele havia avançado uns quinze metros. Pulou as três vezes para fora.
— É uma pessoa. O segredo.
O sorriso de Lucas de alargou.
— Está no rastro certo, gaiolinha. — Lucas se deu um peteleco na cabeça. — O que te levou a pensar?
— Não me chame assim — O sorriso de Faraday morreu e sua expressão de felicidade sumiu. — A única coisa que seria tão invisível quanto o ar que nós respiramos, ao menos para mim, é analisar as pessoas.
As duas mãos de Lucas levantaram-se e ele apontou na direção de Faraday.
— Isso ai, garoto! — Era como ver as comemorações do dia da vitória da batalha do seis frontes.
— Agora resta apenas saber quem é. — Faraday já havia observado boa parte das pessoas.
O que ele não revelaria ainda é que Lucas havia lhe dado a dica final. Na volta da patrulha do dia anterior, denunciou que ele havia "perdido" a chance de descobrir. Ele não havia descolado de Lucas até aquele momento. Se fosse um evento climático, ele teria visto.
— Continuemos então, precisamos cobrir mais quinze metros e temos que fazer isso em todas as pontas de Palamon. — O ânimo do caçador era assustador, cavando cada vez mais rápido.
Faraday sorriu. Pegou duas arvores e começou a caminhar de volta para a entrada. Facilitaria o serviço dos lenhadores. O seu ânimo também voltou, disse Kepler. Voltou mesmo meu amigo disse Faraday.

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