Palamon - Terra - Lucas
O dia estava lindo. Era o bastante para deixá-lo tão suportável quanto poderia ser. O céu azul, poucas nuvens e o vento leve. O perfume da floresta e da vegetação. Os pássaros cantavam e os animais andavam em volta de Palamon tranquilos. Lucas colocava a terra novamente nas trincheiras. Seus olhos acompanhavam o trabalho manual e tentava concentrar sua mente apenas na força das mãos. E na força que desempenhava para se manter de pé. Tentar era a palavra correta.
Revân conversava com os cidadãos. Ele ria de algumas coisas, mas na maior parte do tempo apenas escutava. Perguntavam-no hora ou outra como via sem olhos. Sempre respondendo meio sem jeito. Faraday estava sumido desde o enterro de Magno, não disse uma palavra após a promessa. Atreus estava no campo de tiro com Shin. Ele explicava como se manter firme para o coice da arma não machucar nem atrapalhar a mira. Mesmo o rapaz estando com o braço imobilizado, Ernani achou por melhor treinar um terceiro no comando. Lester assumiu o lugar de Magno.
Um momento de distração. "Poderia por favor..." Aquilo continuava a vir à sua mente. Seus olhos ardiam um pouco e seu coração parecia feito de algum material assimilado com geleia. Então o caçador cerrava os dentes e endurecia a barriga. A sensação passava.
Terminou o trabalho por volta do meio dia. Depois de tantos dias sem luz do sol, era bom saber as horas. Sabia que não poderia se demorar lá, a primeira cidade precisava dele. O novo conselho e os Senhores do Ferro precisavam. As pessoas precisavam.
O povo de Palamon revisavam a muralha de madeira, trocando tábuas com o restante das árvores que Faraday cortou. Pensando agora que poderiam fazer tão igual ou parecido com as torres, fortificando-as. Lucas observou aquilo com a pouca felicidade que tinha.
A voz de Aurora surgiu em sua mente. Eu não posso curar essa ferida disse. Eu vou conviver com isso o resto da minha vida. Essa vida imortal. Lucas sentiu o peso da pá aumentar. Ele fez questão de enterrar o amigo. Seria o primeiro, pensou ele, de muitos. A batalha dos seis frontes teve suas baixas, mas Lucas não havia as sentido pois não era diretamente ligado a eles. Imaginou para quem fosse. Será assim, mas estaremos juntos, não importa o que aconteça. Disse o fantasma.
Entrou na cidade. Alguém bateu em seu ombro. Ernani.
— Adalgisa está fazendo mais um pouco de sopa, se quiser. — Ele sorriu o melhor que pode.
— Obrigado, mas estou sem fome. — Lucas tentou retribuir o sorriso, não conseguiu.
Ernani se afastou com olhos no chão. O caçador andou sem rumo, lembrando do plano, de como mapeou a cidade. Poderia fechar os olhos neste exato momento e poderia transitar sem esbarrar em nada. Porém, ao observar o escuro, apenas conseguia ver o sangue em suas mãos.
A capa estava vermelho escuro. O sangue seco se apoderou da cor dela.
— Ei... — Era uma voz conhecida. — Guardião.
Lucas virou-se e encontrou Lester parado o olhando apoiado em um pilar de madeira. Ele tinha um fio de grama na boca. A camisa verde escura e uma calça surrada.
— Lester. Como vai? — Tentou mover-se, acenar ou qualquer movimento, o corpo não respondeu.
— Bem, na medida do possível. — Ele estava de braços cruzados. — Queria falar contigo.
— Se você for falar merda pra mim, qualquer besteira, agora é a hora. — Saiu mais rápido do que Lucas pode prever. — Pode piorar meu dia, fará bem.
Lester respirou fundo. Os músculos de seu rosto não se moveram. Ele mordeu mais um pouco o fio de grama.
— Obrigado por proteger a cidade. — Lester disse.
O vento passou, levou um pouco de poeira.
— Não há de que. — Lucas baixou a cabeça e se virou para continuar seu caminho. — Vou embora logo, prometo.
— Você fez o que pode... — Lester colocou as mãos nos bolsos, embora não comportassem ela inteira, apenas os quatro dedos.
— Por favor, não. — Lucas balançou a cabeça. Dizia mais para si mesmo do que para Lester. — Só... não.
O silêncio. Nem isso era reconfortante.
— Tudo bem. — Lester disse. — Ele que decidiu, respeito seu luto, mas lembra que quem decidiu foi ele.
Lucas começou a andar novamente, seus pés pesavam muito, mais do que qualquer material que ele já tenha segurado. Uma volta inteira na cidade. Deixou a pá junto as ferramentas. Chegou no campo de tiro e encontrou Atreus ainda apontando para os alvos e ditando alguns detalhes para Shin. O menino escutava com entusiasmo. Quando avistou Lucas parado, acenou com a cabeça. Lucas conseguiu responder.
— Esperamos mais algum tempo e vamos embora. — Disse Lucas, Revân estava atrás coçando o rosto.
— Eu olho o comunicador a cada cinco minutos achando que uma hora ou outra, algum senhor do Ferro irá nos cobrar sobre algo.
— Eu mesmo vou avisar Jaren. — Lucas olhou para a terra batida.
— Sinal de Faraday? — Revân apareceu no campo visual de Lucas, braços para trás.
— Esperamos por ele. E olha ele vindo ali.
A linguagem corporal de Faraday demonstrava mais do que cansaço físico. Era mental. O arcano andou até eles.
— Senhores. — Ele acenou com a cabeça.
— O caminho é longo e não inventaram nada mais rápido que nossas pernas, vamos. — Lucas assoviou e Atreus levantou a cabeça.
Shin acenou com o braço bom, tentou sorrir. Atreus acenou com a mão e voltou para o grupo.
— Ahn... Cidade então. — Atreus sorriu. Lucas gostaria de ser ele, ao menos naquele dia. Distraído.
Andaram ao som dos pássaros e vento passando. Lucas, assim como quando cavava, se concentrava no ato de observar as árvores e tudo a sua volta. Qualquer mera distração o fazia voltar para o momento de sepultar o corpo. As faixas, a terra e as palavras.
A saída de Palamon. O caçador bateu com o antebraço na coluna e então olhou para a torre. Esperou ver o velho Magno acenando. Virou para frente. Apertou as mãos e torceu o pescoço. Os olhos pararam de arder novamente. O silêncio apenas quebrado pelo som dos passos e galhos secos quebrando sob pegadas.
Quilômetros de lama e grama. O orvalho das árvores pingava. O planeta estava revivendo aos poucos, como se o Viajante adormecido fosse seu fantasma gigante e os dois se recuperassem de uma batalha árdua. Tudo alheio a dor de ganhar a batalha, mas perder uma pessoa.
A dor voltava a cavalo. Os pensamentos quebraram-se.
— Climão. — Atreus disse.
Ninguém conseguiu evitar de rir.
Eles riram e Lucas acompanhou. Riu até começar a gargalhar. Depois o silêncio voltou. Ele limpou uma leve lágrima das risadas. Talvez fosse isso, rir é o que restava.

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