Palamon - Terra - Lucas, Revân, Faraday e Atreus

Não existia mais distinção de dia e noite. Se o povo de Palamon não tivesse o costume de ir dormir em horários específicos, Lucas perderia a noção de tempo. Ele mesmo não lembrava a última vez que dormiu. Não conseguiria. Não se deixava descansar até que assegurasse que todos estariam bem. Já havia cavado os buracos. As árvores ficaram a cargo de Faraday. Quando Revân e Atreus chegaram, começaram a cortar as pontas das toras. 
— Eu pensei que viemos para... "piu, piu, pei, pei" — Revân imitou uma arma com as mãos vazias. 
— Repete aí, por favor — Lucas mordia os lábios por dentro evitando um riso.
— Eu não vou repetir — Revân riu enquanto cortava a ponta e deixava o mais pontiagudo possível. — E agora 'to fazendo trabalho manual enquanto a escola, fechada.
— Adiciona isso como aula pros seus estudantes — Faraday olhava para cima, respirando o ar totalmente carregado de umidade e estática. — Mas faça com gravetos, acho que eles não vão aguentar os troncos.
— Ahn... são tão fraquinhos assim? — Atreus estava na décima estaca e as deixava organizadas no chão. 
— Se concentra — Revân riu. — Primeira aula pessoal, como defender uma cidade de um ataque decaído em extrema desvantagem. Vão adorar.
— Quem seria idiota de fazer isso? — Atreus riu e olhou para os amigos. Eles o olharam de volta. Lucas saiu assoviando. Ele andava pela cidade. Adalgisa acenava todas as vezes que passava.
— Vai ficar tonto de tanta volta assim, querido — Ela ria toda vez que o via.
Lucas tentava não ficar vermelho. Ele lembrava do gosto maravilhoso da sopa. Ele não via mais as crianças, nem Shin. Sobre as crianças, entendia que era por medo. Agora Shin era por conta de seu pai. 
— Já estou na patrulha vigésima primeira... 
Ou é a vigésima segunda...? — Disse Aurora, sua fantasma. Ela voava ao seu lado lançando feixes de analise nas paredes e chão. 
Ela o ajudava a analisar cada canto, cada ponto fraco da cidade, tentando captar tudo como se fosse a extensão de seu corpo. O cheiro das árvores, do pinho e do ar carregado de umidade faziam-se presente. As torres estavam ótimas. Magno e Ernani testavam a mira das snipers e dos fuzis de assalto pelos buracos que foram feitos para cooperação deles. As barras de aço estavam bem ajustadas. 
— Mas somos apenas dois. — A voz carregada de Magno disse.
— E temos quatro torres. — Ernani olhava as outras duas ao longe.
Lucas ficou sem responder, ele tinha ideia de como cobrir aqueles espaços, mas não podia falar naquele momento. Continuou andando. 
— Vou pedir uma segunda opinião para Atreus e Revân. — O rosto de Lucas carregava um tom preocupado. — Deveríamos ser seis.
— Vamos ter que improvisar. — Aurora olhava ao redor. 
Quando Lucas voltou para os amigos, o trabalho já havia avançado. Aurora tinha voltado para ele, desaparecendo e fazendo suas considerações. 
— Precisamos fazer uma reunião com toda a cidade. — Revân estava com uma pilha da sua altura ao seu lado. A escuridão daquele dia tornava a ausência de seus olhos algo fantasmagórico. 
— Para assustá-los? — Faraday linguarudo, ele tinha mais liberdade com o outro Exo. — Prometi a eles proteção.
— Proteção de que se não sabe a extensão da ameaça? — E como se o tempo adivinhasse o clima, um trovão. — Você é burro por acaso?
— Como é, Revân? — Faraday tinha as duas sobrancelhas de aço levantadas. 
Atreus levantou-se do chão onde estava trabalhando as toras da trincheira e olhava para os dois. Ele arrumou o cabelo.
— Deveria ter prometido o possível. — Revân parou também o trabalho e cruzou os braços.
— Parem vocês dois. Faraday fez o correto, Revân — Lucas estava sério. — Nas circunstâncias em que estávamos, a fala foi bem-vinda. Porém, agora, devemos detalhar essa proteção. 
O silêncio só foi quebrado por outro trovão. O barulho fez os guardiões piscarem, exceto Revân.
— Fez nada, burro pra cacete. — Revân deu risada.
— Inteligente é você, não é, olho que tudo vê. — Faraday balançou a cabeça em provocação.
— Você não sabe brincar. — Revân deu um breve sorriso.
Paulo disse que os dois haviam brigado feio, mas que depois de um duelo viraram melhores amigos. Eu preciso atirar no Paulo para melhorar minha amizade. Riu, balançou a cabeça.
Então o guardião da torre de Palamon, Magno, estava vindo na direção de todos. Mesmo com as mãos segurando algo, bateu no portão com o ombro. A princípio pareceu um acidente, mas era intencional. Ele parecia cumprimentar os portões. Lucas o aguardou com um sorriso no rosto, tentando disfarçar a tensão.
— Olá Lucas meu querido — Ele olhou em volta, seu sorriso só era visível pois todo seu rosto de movia e seus olhos viravam um risco de cada lado do rosto. — Guardiões, eu não sabia que havia tantos.
Ele tinha uma panela grande em mãos.
— Ahn... O que é isso? — A barriga de Atreus resmungou. — Cheirinho bom.
A panela enorme de sopa fora deixada em um banquinho improvisado.
— Não precisava Magno. — Lucas já tinha uma cumbuca em mãos e tomava alegremente. 
— Da o seu pra mim então — Atreus parecia falar sério, Lucas entendeu como brincadeira.
— Adalgisa me mataria se não trouxesse para vocês. — Ele deu risada, sua voz roca contrastando com aquela alegria leve e limpa, ele tinha um pano em mãos, passava em sua cabeça vez ou outra. — E eu precisava agradecê-los de alguma forma. 
Nos movimentos de sua risada a armadura se movia. Os guardiões sorriram e olharam pra ele. Faraday comeu e forçou Revân a experimentar. A relutância deu lugar ao desespero, pois a panela já estava quase vazia. Houve um pouco de briga de que os exos não precisavam comer. O vencedor de um "pedra, papel e tesoura" deu a Revân a oportunidade de terminar.  Quando a panela esvaziou, surgiu uma tensão no ar, um peso que só Lucas conseguiu colocar em palavras. Ele sabia o que precisava ser feito. 
— Precisamos reunir as pessoas. — Lucas se sentia aquecido pela sopa e de força renovada. — Agora.
Sem saber que horas eram, toda a cidade estava reunida dentro de uma das casas centrais, onde normalmente eles tomavam as decisões. Dentro do local as velas em candelabros deixavam a luz distribuída. O cheiro de pinho era bem pequeno misturada a algum produto que eles usavam para limpar a madeira.
— Casa lotada, o espetáculo está para começar. — Revân brincou.
Magno ficou nos portões da cidade. Foi questionado pela decisão. 
— O que os guardiões decidirem, ficarei feliz em cumprir, estou ao lado de vocês. Tocarei o sino se vir algo. 
— Tem certeza? — Faraday levantou a sobrancelha metálica.
— Se eu sair, quem vai segurar esses portões?
— Ficamos na retaguarda. — O exo sorriu.
— Vocês já estão fazendo isso, guardião — respondeu Magno, ajeitando o rifle em seu ombro.  
Algumas pessoas estavam de pé. Lucas avistou quem gostaria de ver. Piscou para o jovem Shin e ele sorriu.
— Silêncio! — gritou Ernani dentre a conversas altas e paralelas.
Aos poucos as conversas foram silenciando. Sobrando silêncio e sussurros.
— Ahn... por que as crianças estão aqui? — Atreus estava olhando um pequeno círculo delas jogando pedrinhas.
— Elas precisam saber da ameaça que nos assola. — Faraday estava encarando o teto agora. — Eu seria contra, em outra circunstância. 
Os olhares, Lucas conhecia eles, todos eles. Já havia os visto na cidade na época da notícia que precedeu a batalha dos seis frontes. Por favor, salve-nos.
— Olá todos, meu nome é Lucas para os que não sabem. Cá estou com meu esquadrão. — Lucas apontou — À minha esquerda Atreus, à minha direita temos Revân e como alguns sabem, Faraday. — Atreus levantou a mão e deu um "tchauzinho". Revân sorriu e acenou com a cabeça. Faraday permaneceu imóvel.
— Chega de ladainha, os rasteiros estão aqui por causa de vocês! — Lucas já esperava por isso, só não sabia que seria tão rápido.
Alguns protestos em concordância. O propagador era o pai de Shin. Inconfundível o som de raiva misturado com frustração. A boca era um fio vermelho naquela barba imensa. 
— Jaren Ward havia me pedido para vir, pois o mesmo está ocupado. Se não fossemos nós, seria ele. — Lucas mantinha a calma nas palavras, não deveria enfrentá-lo ali. 
— Jaren nos libertou do Magistrado Loken. Se ele confia em vocês, devemos confiar também — Disse Ernani tentando acalmar os ânimos.
Outras palavras em resposta afirmativa. Aurora disse na mente de Lucas. Estão divididos. Precisamos reorganizá-los.
Como estão os preparativos? — Era um homem com olhos escuros e cabelo ralo.
O plano é simples, mas por mais poderosos que somos, precisamos da ajuda de mais dois de vocês. — disse Faraday. Um dos braços estava cobrindo o peito e uma mão gesticulava.
Murmúrios. Ernani olhava para eles com seus cenhos franzidos. Essa parte Lucas não havia contado.
— Pra ficarmos naquelas torres enormes que construíram? — Era um senhor — Meus nervos estão em frangalhos, só sirvo para capinar.
— Não esperamos nem que crianças, idosos ou mulheres façam esse trabalho — Revân avançou sorrindo. Isso fez algumas pessoas relaxarem. 
— Eu tenho dois nomes — Lucas apontou para o pai de Shin e o próprio. 
O rosto do homem começou a ficar vermelho. Daquela distância, conseguia fulminar todos os guardiões. 
— Isso é um absurdo — a voz dele era tão poderosa quanto aparentava os músculos de seus braços. — Vocês são imortais e tem poderes. Por que colocarei a minha vida e a de meu filho em risco?
— Eu quero ajudar. — Disse Shin, quase deixando surgir um sorriso na boca de Lucas.
— Você, calado! — O homem nem olhou para o rapaz. — Deveriam se envergonhar, pedindo para sacrificarmos por conta da ineficiência de vocês, seus desgraçados.
Os guardiões não se mexeram, mas olhavam sérios.
— Entendo que não queira pôr seu filho em risco, mas ele estará em risco de qualquer forma senhor. — Argumentou Faraday.
As crianças voltaram-se para seus pais. 
— Porra nenhuma, próximo a mim ele estará a salvo. — Deu um passo a frente.
— Lester, vamos — Ernani balançava a cabeça — Você tentou lutar contra a tirania de Loken, o que muda aqui?
— Nós estávamos sozinhos e um guardião apareceu e nos salvou. — Ele abriu a mão e voltou-se para as pessoas procurando apoio. — Mas Jaren não pediu nossa ajuda, agora temos quatro deles e eles pedem nossas vidas!
Algumas falas em concordância. Porém foram quebradas por um trovão, assustando algumas crianças. Elas abraçaram seus pais com olhos marejados. Os pais também os tinham.
— Senhor Lester, a vida de seu filho é insubstituível, eu sei. Cada um aqui presente é dedicado a família, mas se o rapaz quer ajudar, eu não ve... — Era outro senhor. Um soco na parede.
— Não vou entregar minha vida nem a vida da minha família para vocês — A barba negra e o rosto vermelho em alguns cantos estavam começando a assustar as pessoas. — E nem pra vocês seus zumbis de merda.
— Ahn... zumbis? — Atreus levantou a sobrancelha. 
Essa é nova Lucas pensou. Ele está de parabéns pela criatividade Aurora estava rindo. 
— Se morrermos, morreremos todos! — Lester esbravejou. As crianças começaram a chorar.
— Chega pai — o jovem Shin surgiu, tão rápido quanto foi tentando tirar a arma de Lucas. — Você não pode decidir pela vida de todos!
— Já falei pra se...
— Você quer que a mamãe morra? — Aquilo foi um tiro de precisão — Quer morrer antes ou depois de mim?
O homem musculoso, barbado e rígido perdeu a cor.
— Sei o que todos pensam de mim. — A voz tímida de Shin estava alta e em bom som. 
O silêncio só não era total pois as crianças choravam. 
— Sei que não gostam do que faço. Sei que dou trabalho. Mas não me perguntem o porquê — Shin baixou a cabeça e olhava para as mãos a procura das respostas. — Mas sacrificaria minha vida por todos vocês.
Um sussurro no ouvido de Lucas.
— É ele. Ele é um guardião. Humano, mas com atitudes de guardião. — Faraday tinha orgulho em sua voz ao falar. O caçador não conseguiu evitar um sorriso. 
— Mas não consigo sozinho pai — Shin tinha seus olhos vermelhos e uma lágrima desceu. — Eu preciso de você. Para proteger... nossas vidas. Eu tenho esse sonho desde que Jaren entrou pelos portões da nossa cidade. Desde que segurei a arma dele em minhas mãos.
Lester olhou para o filho e uma leve lágrima surgiu. 
— Não posso te perder... — Era um sopro, mas Lucas ouviu.
— Não vai.
Trovão. Cheiro de água forte no ar. Sons na telha do casarão. 
— A chuva começou. — Revân disse.
O sino. Magno. Os gritos começaram e confusão. Todos se olhavam desesperados.
Um tiro no chão quase deixou todos surdos.
— Calados! Todos fiquem aqui. — Era uma voz nova, ou quase. Atreus apontava para os olhos esbugalhados e preocupados das pessoas. — Lester e Shin, para as torres leste e sul. Ernani, Norte e Magno estará na torre oeste. Agora! — Ele engatilhou a sniper e começou a correr para a porta da frente da estrutura.
Lucas não pode fazer nada a não ser segui-lo. Olhou para Faraday e Revân e os dois deram de ombros, tão impressionados quanto ele.
Lá fora com trovões e chuva, Atreus colocou o capacete.
— Atenção ao comunicador. — A cabeça dele observava os três amigos. — Em nenhuma circunstância podemos morrer, não hoje. Atirem e se precisarem de ajuda, engulam o orgulho e peçam. Vamos!
—  Atreus? — Lucas estava com a boca aberta. 
— Não dá tempo, vai, vai, vai.
Um raio caiu próximo. Um tiro. Decaído.
— Shin e Lester, aqui. — Lucas viu os dois saírem da igreja. Ele os entregou aparelhos pequenos. — Coloquem nos ouvidos, são nossos comunicadores, falem quando precisarem de ajuda.  
Lucas correu em direção à sua frente de batalha. Um raio. Ele pôde guardar por alguns segundos Palamon na mente e pulou pelos prédios para chegar mais rápido. Quando caiu por cima do muro, estava tudo muito escuro.
Outro raio.
Luz. 
A chuva caia em um mar de decaídos. 
— Venham, seus filhos da puta. — Lucas puxou o canhão de mão e a fria água combinava com o metal em suas mãos. 



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