? - Terra - Matheus e Paulo PT. 3

As pegadas na terra. O frescor do ar. Olhar pelo que lutou e pelo que lutar. Era bom ouvir pássaros cantando, o vento passando e o sol esquentando o corpo. Matheus absorvia tudo aquilo com felicidade, tentando deixar as memórias das últimas semanas para trás. Andar e se preocupar com o objetivo era bem melhor que manter a cabeça travada na primeira cidade. No campo de batalha. Ver Paulo quieto, porém animado também era satisfatório, aquele titã era movido por ajudar as pessoas e questionar cada passo de si mesmo. 
Paulo respeitava seu silêncio e isso era ótimo. Nem todos conseguiam fazer isso. Ele podia lembrar de algo como "O silêncio é ouro." Cada um com seus próprios pensamentos. 
Então a floresta começou a dar espaço para a cidade. Entretanto ele poderia chamar de "cidade", pois as construções estavam por um fio de cair. Todas elas malconservadas. Janelas quebradas, quintais com a maioria de suas plantas mortas e as ervas daninhas florescendo. Carros pegando poeira, quebrados ou amassados. Os asfaltos rachados em alguns pontos. E a natureza já estava tomando conta de boa parte daquilo. Aquela era a herança da era dourada, mas muito mais do colapso. 
Nas paredes de alguma das casas, cortes no que parecia garras. "Sucateiros". Eles passaram por ali. Alguns barulhos de aço amassando ou algum eco da cidade de algo não identificado. Aquilo não deixava Matheus tenso, poderia ser qualquer coisa. 
Ao olhar para ausência das pessoas, de casas não ocupadas um nome voltou, como algum fantasma de dentro delas. O nome Fabiana apareceu em sua mente. Como aquele pensamento que você tenta tirar da mente e ele sempre aparece sentado a mesa do café lhe esperando. Será que ela morou por ali? Será que ela tinha uma família? Será que ele era a família de Fabiana? Avó, mãe, amiga, irmã, esposa ou filha? Muitos pensamentos em torno de um nome. Absolutamente todas sem resposta. 
Mais uma vez o peso da memória lhe doía. A única guardiã que aparentava ter a mesma preocupação que ele era uma caçadora, uma tal de Anastácia. A arma em suas costas, a estratégia Fabiana, só lhe deixava ainda mais pensativo. 
A cidade tornou-se uma rua enorme. Chamavam de avenida. E durante a longa avenida um lago enorme. Peixes prosperavam e alguns predadores naturais. Não estava totalmente cristalino, porém tinha vida, que já era alguma coisa. Nos tempos pós colapso sempre era uma alegria ter vida. "Uma das muitas últimas coisas pelo que lutar" disse São 14. A voz retumbante do titã soava em sua mente.
Os passos no concreto, o pouco de respiração ofegante que havia e os pássaros cantando eram mais comuns. Porém a ausência de naves decaídas ou de patrulhas na região estava sendo um mal pressagio. Provável que Paulo também já havia percebido, mas também não compartilhou, com certeza achava que não era necessário para o titã. 
Os fantasmas dos guardiões apareceram. 
— Vocês estão muito quietos — Fenrir finalmente disse.
— Eu também acho. — Soutre completou. 
Os dois titãs permaneceram mudos. Por de baixo do capacete de Matheus tinha um sorriso. 
— Já entendi, o estilo de vocês é o silêncio. — Soutre disse com um ar zombeteiro. — Nós respeitamos, mas vamos conversar para espantar esses "espíritos" que estão nos seguindo.
— Eu concordo Soutre — O fantasma de Matheus completou. — As patrulhas decaídas têm sido pequenas ou mínimas depois da derrota deles.
— E isso me deixa com uma pulga atrás da orelha. — Disse Soutre, Paulo virou o capacete. Seu fantasma nem precisava o olhar nos olhos. — Se eu tivesse orelha. Está feliz?
Paulo balançou a cabeça e voltou-se para frente. A avenida tinha se transformado em rua novamente. As casas retornaram, estas mais desenvolvida, não menos quebradas do que as outras. 
— Eles podem estar planejando algo pior. — Fenrir falou sem emoção, mas havia preocupação naquela singela frase.
— Se tratando dos decaídos, sempre há algo pior. — Soutre falou mais pra si do que para todos. — Aprendemos bastante coisa sobre nossos limites e sobre o limite deles.
— Precisamos ficar mais fortes a cada dia e superar esses limites. — Desta vez foi a vez de Paulo dizer. Os dois fantasmas viraram-se para o titã até então calado. — Eu sei que estão se divertindo, mas pode ter decaídos na região apenas esperando a oportunidade de atirar em vocês. Se escondam, prometo que quando tivermos assunto, iremos falar.
Com apenas um aceno eles desapareceram. Matheus ficou um pouco mais aliviado. Ele começava a sentir exatamente o que Paulo descreveu. A sensação de estar sendo vigiado. 
A cidade estava ao lado esquerdo, com suas construções destruídas, casas abandonadas e pintadas de uma cor opaca e desbotada pelo tempo. Ao lado direito, para uma sensação estranha de satisfação de Matheus, uma floração. Podia ser o que as pessoas chamavam de parque. Algumas ruas abertas davam entrada a encruzilhadas de ruas para mais dentro da cidade, mas Matheus tinha o mapa em mente, Paulo o seguia alguns passos atrás, fazendo papel de escuteiro e ao mesmo tempo da defesa. 
Algumas arvores estavam recuperando a floração, o inverno tinha acabado por lá há algum tempo também. Um pouco mais além do parque a direita, mais um rio. 
— Vamos ter que atravessar o parque logo a frente, atenção — Matheus retirou a estratégia Fabiana das costas.
Paulo seguiu o exemplo e sacou seu fuzil de assalto. Os passos seguiram-se mais calmos e atenciosos. Nenhum movimento na floresta, mas todo cuidado era pouco. 
— Eu odeio ficar assim. — Paulo disse.
— Por mais que sejamos imortais, sabe que não podemos deixar a guarda baixa. —  Matheus respirava baixo, afim da conversa soar como um sopro.
— Eu entendo, porém não faz eu ter menos ódio. 
— Você precisa aprender a controlar seus sentimentos. —  Matheus soltou um leve riso.
A passagem foi tranquila, mas não voltaram a colocar as armas nas costas. Desde a última missão, nunca tinham ido tão longe da primeira cidade, não tinham tanto reconhecimento daquela área, nem de nenhuma que viria além. 
Andaram um pouco mais e se depararam com uma enorme ponte. Ela estava quebrada em alguns pontos, mas não parecia que quebraria. O concreto e os carros quebrados na rua transmitiam uma segurança.
— Parece uma armadilha. — Paulo tombou a cabeça um pouco para o lado e seu fuzil de assalto batia em seu ombro. 
Matheus tentou puxar em sua mente o local mais próximo para atravessar o rio gigantesco. 
— Você sabe nadar? — Matheus virou-se para Paulo, a arma na mão e o pé coçou o calcanhar.
— Acho que sim. — Paulo coçou a cabeça com a mão livre.
— Acho bom, porque provavelmente é uma armadilha. — Ele riu. 
— E vamos cair nela? — O desperto acompanhou o riso e deu um tapa no ombro do amigo.
— Com certeza. — Matheus tirou o carregador da arma e realocou ao confirmar ele cheio. 





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