? - Terra - Paulo e Matheus PT. 2

— Perun e Radegast devem estar brigando até agora, porém eu os deixei assim e disse que volto em um mês. — Paulo ajeitava uma mala nas costas. — Agora se eles ouviram...
— Você nem me chamar pra ver essas brigas. — Matheus o acompanhava com uma mochila nas costas.
Foi feito uma votação para o pedido de coleta de recursos e insumos médicos. Paulo não entendia muito bem porquê ele devia falar com os Senhores do Ferro ou com o novo conselho da cidade. Ou mesmo com o porta voz. Guardiões saiam a hora que queriam da cidade por motivos pessoais e não via ninguém sendo punido severamente. Entretanto, o desperto gostava de seguir algumas regras, algo dentro dele dizia que era melhor assim. 
Com um voto para desempate, Radegast disse que o ato nobre de Paulo deveria ser exaltado e o mandou embora com a benção do viajante. Perun por outro lado estava furiosa, pois Paulo fazia parte da equipe que mais recuperou terreno durante a batalha dos seis frontes, desperdiçá-lo em uma missão assim tão longa era loucura. Saladino no fundo da sala quieto. Felwinter apenas olhava seu tablet sem se importar realmente com a discussão. Paulo não ficou muito tempo dentro da tenda para escutar argumentos contra.
Aquela manhã tinha o perfume do orvalho e o sol que toca a pele esquentando levemente, sem incomodar. O vento gelado, mas não de arder o nariz ou o rosto. Paulo interpretou aquilo como um sinal. Se sentia com sorte, esperava que esse sentimento permanecesse por toda a estrada e além. E na volta. 
Matheus não era muito falante, mas Paulo gostava do silêncio dele, era tão igual ou parecido com o próprio. Sabia os momentos certos de falar e como falar. O caminho não seria longo ao seu lado. Claro que sentia falta da matraca desenfreada de Lucas, mas estreitar os laços era importante. 
— Sendo bem otimista, —  Matheus não tirava os olhos do horizonte — se encontrarmos muito mais recursos do que esperamos, vamos precisar de mochilas maiores.
— Como saí às presas da tenda dos Senhores do Ferro, não pedi nenhum veículo ou cavalo para nos levar — Paulo passou a mão na nuca e abaixou a cabeça — mas irei fazer o possível caso haja alguma tecnologia da era dourada que nos ajude quanto a isso. 
A resposta de Matheus foi um sonoro "hum", mais pensativo que contemplativo. Paulo começou a observar o caminho de terra, as montanhas e as árvores. Um sorriso sincero e de nostalgia surgiu. O terreno irregular era diferente das lembranças, estava com menos neve do que a última vez que passou. Os decaídos não estavam tão na espreita, mas as armas estavam a postos. A sensação era boa de seguir o caminho de volta da primeira cidade. 
Devagar, depois de algum tempo andando, a noite chegou. Acampamento. Matheus olhava as piras e o fogo do acampamento. A sombra em seu rosto e olhos vermelhos transformavam o titã tranquilo em algum inimigo feroz da noite. Se não soubesse, Paulo estaria em posição defensiva ao avistá-lo. Se de longe fosse, pediria em algum tipo de mantra para não ser visto. A lebre assando em uma estaca derramava gordura, gerando vários momentos de iluminação mais profunda. O aroma da carne assada atiçava o estômago de Paulo.
— Você e Revân comiam na Lua? — A pergunta surgiu nos lábios de Paulo. 
— Não. Ainda bem que somos Exos. — Matheus olhava e mexia no fogo com um galho de arvore queimado nas pontas. — Sentia muito pouco o calor do sol e não sentia quase cheiro de nada. Só o mofo das coisas e o metal pesado. 
— Eu acordei dentro de um navio destruído e enferrujado. — Paulo acompanhava o graveto batendo na lenha. — Encontrei meu nome em um livro e matei um capitão em seguida. E morri. Senti cheiro de metal enferrujado e de livros velhos. Estão assolados na minha mente e fazem morada em meus pulmões. Posso senti-los agora mesmo se quiser. 
Matheus olhou para Paulo e permaneceu assim por alguns segundos. 
— Como foi morrer pela primeira vez? — Poucas vezes Paulo viu o titã exo tão sério. 
— Foi... — O desperto olhou para as próprias mãos, fechou e abriu os dedos. Tentou lembrar do desespero e o abraço da morte.
Os ombros flexionaram, os pés firmaram no chão. Uma respiração profunda surgiu. No fim, Paulo estava sério e com um olhar apagado. 
— Terrível. 
O barulho da lenha queimando e os galhos estralando. Outro respiro. O cheiro da carne misturada a fuligem.
— Toda vez é. — As mãos juntaram-se e se esfregaram. — Meu último pensamento foi que eu tinha feito o que pude, mas foi uma mentira. Uma mentira de luz. 
Mais uma respiração longa, passar a mão pelos cabelos. Matheus olhava paciente para o amigo.
— É o nome que dou para as mentiras que preciso contar para as pessoas. — Paulo sorriu.
— Vai ficar tudo bem. — Completou Matheus e Paulo apontou em sua direção acenando com a cabeça. — Iremos proteger vocês.
Mais alguns segundos de silêncio. 
— Eu mal tinha acordado, e já estava no chão, sangrando. Sempre que fico no escuro, se não me controlo, volto para lá. Não sei se vou acordar de novo. Fico preocupado com Soutre. — Comprimiu os lábios. — E você?
Matheus riu e coçou a cabeça metálica.
— Levei um tiro nas costas por descuido — Ele sorriu e olhou nos olhos azuis de Paulo. — Fenrir nem pra me avisar.
Não podemos entregar tudo de cara, não é? Soutre disse na mente de Paulo. Possível que algo semelhante tenha sido dito na mente de Matheus, ele balançou a cabeça e a mão sem graveto ficou abanando. 
— Os sucateiros me pegaram e eu me senti tão idiota por estar caindo bem ali. Depois de ter lutado pra sair de um buraco na lua. — O sorriso foi morrendo aos poucos. — Depois de ter avistado a terra. O Viajante. 
Paulo levantou-se e pegou um pedaço da lebre enquanto a tirava do fogo para não queimar. Ele começou a comer sem muita fome.
— Encontrar Revân foi reconfortante. Ver quilômetros e quilômetros de espaço lunar sem ninguém...— Matheus deu de ombro, mas sua expressão era tristeza — Não falo por Fenrir, ele sempre vai ser minha companhia, mas você sabe o que eu quero dizer, não é? — Matheus virou as palmas das mãos pra cima. — Eu queria ver... alguém como eu. 
— Lucas apareceu muito pouco tempo depois, mas até agora não encontrei alguém parecido comigo. — Paulo mordeu mais um pouco e percebeu o olhar apreensivo do Exo.
— Eu não quis ofender.
— Deixa de ser imbecil, eu 'to te zuando. — Paulo sorriu. 
— Arrombado. — Matheus jogou o graveto na fogueira. As fuligens ardentes voaram um pouco. — Eu ainda não consegui descobrir como o maldito do Revân voltou. Ô bicho lazarento.
Os dois riram juntos, Paulo se conteve para não engasgar. 
— Nunte —  Paulo terminou de rir, Matheus apontou pra ele em reconhecimento da fala. — A conversa ficou muito séria. 
— Ficou mesmo, mas nem tudo pode ser brincadeira, certo? — Matheus levantou-se — Vou dormir um pouco, vê se não se mata com a carne. E não me toque enquanto estiver deitado, não confio em cara que tem tesão em Exo.
— Eu poderia te responder, mas vou optar por ficar quieto, pra não perturbar o seu sono. Desgraçado — Paulo deu mais uma mordida nos pedaços de lebre. 
O exo deitou-se em um saco de dormir. Paulo observou os comunicadores nas bolsas, ainda desligados. Estavam próximos a cidade o bastante para voltar, caso alguém mandasse. Melhor ligar apenas quando estivessem muito mais longe do que estavam agora. Pelo viajante, eu quero achar os remédios pensou o desperto. 
Paulo levantou a cabeça e sacou o fuzil automático. Calculou onde estava a lua e que horas acordaria Matheus. Devíamos ter relógios Soutre disse em sua mente. Eu também acho Soutre Completou Paulo. 
 



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Palamon - Terra - Faraday e Lucas - PT. 3

? - Terra - Lucas

? - Terra, A batalha dos Seis Frontes - Todos