? - Terra - Lucas e Faraday - PT. 2

A calmaria de Palamon ao anoitecer era muito bom. A iluminação bruxuleante das tochas em cada canto dava um ar de mistério ao local. Os grilos tocavam suas músicas calmas. Lucas aguardava Faraday voltar da patrulha com Magno. Disse ele, com sua voz que carregava o tempo, que viu os rasteiros andando pelas proximidades. Era uma ótima maneira de chamar os decaídos. Enquanto isso admirava as estruturas de madeira e os roncos ocasionais de alguma casa. 
Observar as pessoas e interações fez Lucas começar a entender suas próprias limitações, e ainda melhor as de Faraday. Como era fácil para o Exo diversificar as estrelas no céu e constelações, o som dos grilos para saber se está calor ou frio, ou até mesmo a névoa na noite será seguido de um dia claro e sem nuvens. Em contraste, como era terrível e agonizante entender uma entonação errada de alguém, um olhar para o lado enquanto fala, um balançar de pernas durante o diálogo. Não que para Lucas fosse a coisa mais fácil do mundo, mas se sentia mais conectado com as pessoas e com o mundo do que o Exo. Não sabia se isso poderia ser associado a ele ser um robô. [Aurora] Não deve ser, Matheus e Revân também são e os dois tem bem mais inteligência emocional
A diversão do segredo era deveras boa. Sabia que Jaren lhe confidenciou, mas já que precisavam estreitar os laços, o que poderia ser melhor que um segredo? Ainda sentia falta do tom quieto, porém contemplativo de Paulo. A quietude de Faraday, diferente do titã, incomodava. Como se algo dentro dele estivesse preso, tentando escapar. Não sabia se era papel dele, mas ensinaria o arcano a interagir e conversar com as pessoas, saber quando puder e onde puder. O melhor que ele mesmo já conseguia.
Um tiro. 
Alto.
Arma local, não decaído. [Lucas] Está dentro dos limites de Palamon.
Lucas correu e cobriu boa parte do terreno antes mesmo dos moradores terem colocado seus chinelos ou calçados para descobrir o que houve. Pulou por cima de uma fogueira que já não esquentava uma panela de ferro fundido. O campo de tiro. Um rapaz estava parado olhando para a madeira pintada em vermelho com as miras e os respectivos alvos. A arma, um canhão de mão, caída no chão. Estava estranhamente parado.
— Oi...? — Possível estado de choque.
Lucas começou a ouvir passos vindo as pressas. Levantou a mão esquerda enquanto a outra permanecia no coldre. Sem resposta. Andou alguns passos.
— Você está bem...? — Lucas absorveu o cenário. 
O menino permanecia parado. Sem reações, Lucas dificilmente podia dizer que respirava.
Lucas o tocou no ombro.
Ele era tão rápido. Tanto quanto o guardião. Girou e pegou sua mão. O forçou contra o corpo. Faltou força. Só vi Jaren ser tão rápido. E Atreus. Tentou pegar a arma dele. Segurou suas mãos. 
— Calma ai garoto — Ele se retorcia para se soltar, se aplicasse mais força, Lucas poderia quebrar o braço. — Tenha...
Então Lucas viu o alvo. Um tiro perfeito no centro. Atreus poderia ter feito aquilo.
— Por favor, solte-o senhor guardião —  Era uma mulher de cabelos encaracolados curtos, olhos negros e roupas simples.
O caçador lembrou-se que segurava o menino. O soltou para a mulher. 
— Shin — Quando o caçador disse o nome, o menino o olhou desconfiado.
— Como sabe meu nome? — Um homem um pouco mais robusto juntou-se a moça que olhava o corpo do rapaz a procura de feridas ou machucados.
— Você o machucou no pulso. —  Era um protesto. A barba enorme escondia a boca. Sua cabeça raspada e olhos escuros tinham extrema raiva contida. 
Lucas abaixou-se e pegou o canhão de mão.
— Ele poderia ter pego a arma. Ótimos reflexos a propósito. — O caçador girou a arma na mão.
— Te perguntei como sabe meu nome — ele tinha quase a altura de Lucas, camisa surrada, calça remendada. Cabelos curtos e castanhos.
— Jaren me falou sobre você —  A surpresa acometeu o rosto do rapaz. Ele tentava deter as preocupações do que poderia ser sua mãe e ignorava o olhar o que poderia ser seu pai. — Peço desculpas pelos vermelhos no seu braço, mas nada que terá danos permanentes.
— Não tem como saber com certeza — O homem estava amargo.
— Sou um guardião senhor, com todo respeito, sei medir minha força. 
— Está tudo bem pai. — Ele abraçava a mãe. — Qual seu nome mesmo?
— Lucas. — O guardião lançou o canhão de mão para o rapaz que o pegou no ar e no mesmo instante guardou em um coldre improvisado. Era um resto de sapato amarrado em corda.
— Muito prazer e me desculpe.
A multidão já começava a se dispersar. O homem pedia desculpas pelo alvoroço enquanto algumas outras pessoas reclamavam que o menino estava já dando trabalho há muito tempo. Que a caça era para os mais velhos. Enquanto Shin e mãe iam andando para sua casa o homem se demorou um pouco mais e deixou um breve olhar desconfiado para Lucas. 
Eu teria raiva também. É como se fosse o último tesouro dele.  
Alguns minutos se passaram e Faraday chegou com Magno.
— Alguma sorte? — Lucas ficou parado exatamente onde estava o garoto e mirava com seu canhão de mão no local onde ele acertou.
— Perdemos o rastro. Os decaídos vão atacar este lugar. — Faraday o olhou de cima a baixo. — O que foi?
— Perdeu a chance de descobrir mais rápido sobre o segredo. — Sorriu enquanto percebia de rabo de olho a expressão de raiva de Faraday.
— Você faz a patrulha na próxima. — Frustração. Isso é bom. — Vamos precisar de mais tempo e de reforços.
Lucas se virou para o exo e guardou a arma.
— Gostaria de não poder concordar. Faça contato com Revân e Atreus, eles ficarão felizes de esticar as pernas.





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