? - Terra - Atreus e Revân
— Eu não vou decorar estes nomes. — Atreus sabia seus próprios limites, conhecia sua mente afiada para balas e informações que julgava necessárias, mas aquilo...
Embora não valesse a observação, enquanto Atreus andava olhando a cidade, percebia que ela estava mais potente, mais forte. Os muros já estavam extremamente altos. A tecnologia começava a fluir, energia elétrica nas casas e recém-formados postos de distribuição de comida. Estavam construindo uma torre gigantesca em um dos pontos da muralha, era muito interessante. Até o cheiro estava melhor. As pessoas estavam tomando banho em suas casas e preparavam comida com alguns aparelhos elétricos improvisados.
— São o novo conselho da cidade Atreus, precisamos nos atentar. Osíris, seu amigo, é o mestre desse conselho. — Revân, ao contrário de Atreus, era um arquivo ambulante. Ele mesmo desconhecia de onde surgia tantas informações, se era apenas dos livros ou da mente do corpo exo, mas lá estava ele decorando mais coisas.
— Ahn... 'Tá bom. — Atreus estralou o pescoço e esticou as mãos. — Osíris, arcano. São 14, titã. E dos caçadores... tem dos caçadores? — a sobrancelha castanha de Atreus ergueu-se.
— O porta voz está à procura de um. Mas ao que parece, ele já tinha um nome em mente. Tallulah, uma caçadora dos seis coiotes. É justo, tamanho poder de organização. — Atreus queria ter feito parte dos seis coiotes, mas seu tempo servindo os Senhores do Ferro foi longo demais.
— Ahnn... Tallulah, caçador. — Atreus olhava para a rua e coçou a nuca.
Não percebeu que Revân parou e trombou nele. A ausência de reação dele foi interessante, mas Atreus virou um pouco para o lado e tentou observar o que Revân olhava. Nada despertava seu interesse. Pessoas, casas, negociantes...
— Ahn... Revân? — O caçador o cutucou.
— Eu... não... espera, que? — Pela primeira vez Atreus viu o arcano perdido em pensamentos.
— Viu alguma coisa? — Atreus coçava a barbicha.
— Vamos continuar com a nossa patrulha, sim? — Revân ao menos estava animado.
A animação do Exo se dava talvez devido aos frutos colhidos após a batalha dos seis frontes. A escola agora tinha mais um turno, manhã e noite. Aumentaram um dia da semana, porém aumentaram o trabalho na cidade quando os dias de aula não aconteciam. Patrulhas e mais patrulhas. E por mais que Atreus se sentisse bem ligado ao amigo, havia sobrado apenas ele para juntar-se e estreitar ainda mais os laços.
— Somos muito amigos, Atreus? — Durante a reunião, o rosto sem olhos de Revân virou-se para ele.
— Ahn... Eu já te dei um tiro na cabeça sem querer e você me perdoou. Você é muito meu amigo. — Os sorrisos e risos não foram contidos.
Enquanto lembrava, Atreus sorriu e olhou em volta. As cores das paredes também pareciam mais novas e mais felizes. Mesmo sem uma explicação lógica, o caçador sentia-se feliz por tudo aquilo estar acontecendo.
— Senhor Revân. — Atreus sentiu a garganta se retrair num riso, mas quando virou-se, viu um caçador abordando o amigo.
— Pahanin, não esqueci de você, ainda lhe darei a entrevista. — O Exo sorria e apertava a mão num cumprimento. — Este aqui é Atreus.
— Qualquer amigo de Revân é meu também. Muito prazer. — Atreus não sentiu maldade nas palavras dele. Levantou a mão e ele a pegou em suas duas mãos. — Estou com meus amigos Kabr e Praedyth, que adoraria apresentá-los. Ficaremos na cidade por estas semanas. Por favor venha nos ver. Este é o local provisório. — Um papel na mão de Revân.
Eles se despediram.
— Vamos amanhã, que acha? — Revân sorria.
— Ahn... Por mim tudo bem.
— Expandir as conexões é muito importante. Nosso grupo é diversificado, porém não sabemos de tudo.
— Facção, não é? — Atreus coçou a cabeça.
Revân demorou alguns segundos para responder. Voltou-se para Atreus, por mais ausentes que seus olhos pudessem ser, o caçador sabia que ele estava preocupado. Ou algo parecido.
— Estamos tento problemas com facções esses últimos tempos Atreus, melhor não nos titularmos assim. Acho que grupo ou até mesmo clã dos Não tem um nome ainda é bem melhor. Soa menos... afrontador.
— Ahn... Acho que entendi.
Embora a ameaça dos decaídos tenha unido a cidade sobe uma só bandeira, depois de sua derrota, algumas facções surgiram novamente, querendo poder por sobre a cidade. O conselho formado pelo porta voz, com cada classe de guardiões, era para dar um basta nessas brigas sem sentido. Mas sem humanos, Atreus sabia, iria dar algo de errado. Ele não precisaria ter a mente que decorava ou o raciocínio rápido de Matheus para armas para ver aquilo que estava estampado.
E se ele sabia, provavelmente todos já sabiam.
A mente de Atreus saltou de um lado para o outro. Entre balas da batalha dos seis frontes para conversas, interações, pessoas e momentos. Sobre seu loot e sobre como guardá-lo. Viu outros guardiões acenando. Retribuiu o gesto. Ele havia revertido, graças aos amigos, de uma fama de desligado para uma mira sem igual.
Revân não falou durante o percurso. Atreus lembrou de uma frase que dizia que só suporta seu silêncio quem é seu amigo íntimo. Algo nesse sentido. Então algo o deixou preocupado. Algo que não o fez arrepiar, mas sentiu um frio interno nos órgãos, quase a sensação da morte.
— Ahn... Revân? — Atreus tinha na voz o ar da questão.
— Calma, só mais uma hora de caminhada. — O amigo sorriu.
— Não é isso. Eu posso te fazer uma pergunta? — Revân parou e sorrindo, virou-se.
— Claro.
— Se todos nós cairmos, quem vai nos levantar? — Atreus olhava para baixo e mexia a capa com os dedos.
Alguns segundos sem resposta e Atreus levantou-se para olhar no rosto de Revân. O rosto dele já sem olhos estava de alguma forma paralisado, como Atreus nunca havia visto. O metal de seu rosto parecia ter mudado de tonalidade, como se acompanhasse os sentimentos do amigo.
— Nós não..., mas como vamos todos cair? — Ele gaguejou, era um mal sinal.
— Ahn... Eu não quero te perturbar com essas minhocas da minha cabeça. — Atreus sentiu corar seu rosto.
— Não me perturba Atreus. Eu só quero entender.
— Se não fosse pelo tio Osíris e pelo São 14, teríamos morrido. Ou ao menos alguns de nós. — O lábio se comprimiu. — Se cairmos de novo, quem vai nos levantar?
Revân olhou para frente e pro céu, onde o Viajante estava. Parecia com o caçador em seus devaneios. Olhou para o chão e sorriu. Era um sorriso genuíno.
— Sempre vai sobrar um de nós — Revân finalmente disse enquanto colocava um braço para trás e apontava para Atreus. — Matheus daria um jeito.
— Mas... — Revân aproximou-se rápido, quase Atreus sacou a sniper.
— Mas nada! — Ele sorria — Se não ele, você, senão você o Lucas. Quando nós cairmos, cabe um de nós ser o mais forte. Não de todos, mas do que si próprio. Entendeu?
Atreus deixou longe novamente as minhocas. Elas não seriam alimentadas hoje.
— Obrigado Revân. — O caçador deu um leve soco no ombro do exo.
— Não há de quê. — O arcano acolheu o soco com um certo carinho.
— Eu vou tentar ser forte por mim.
— É assim que se fala — O sorriso compartilhado levou os dois a andarem novamente.

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