? - Terra - Matheus e Paulo
Matheus olhava os mapas. Uma leve porção deles. Uns pequenos e bem grosseiros, outros maiores e detalhados. Estavam desgastados, não por mal uso, porém o tempo não foi gentil com eles.
— É uma cidade grande. — Matheus estava com uma sobrancelha levantada e com o indicador no queixo metálico. A armadura trocada, era de um material melhor e mais bem trabalhado. — Não, é um "país" grande. Revân sempre vai ficar na minha cabeça. — Matheus apontou pra cabeça e com a outra mão segurava o mapa aberto.
— E é por isso que eu preciso de uma equipe, mas Os Senhores do Ferro não cooperaram comigo. — Paulo estava sério. Ele falava mais pausadamente. Olhava para uma parede. Não havia nada de muito importante nela, porém Matheus entendia que estava perdido em devaneios.
— E havia hospitais.— O Exo sabia que esse era o tema central.
— Muito melhor Matheus — O brilho nos olhos do desperto se reavivou e ele se ergueu da cadeira onde estava. — Ainda HÁ hospitais.
— Como pode ter tanta certeza? — Matheus virou-se para o amigo — Os decaídos podem já ter pilhado tudo.
— Eles veem utilidade em aço, sucata e tralhas. Eles não estão atrás disso. — Paulo deu um peteleco no mapa — Ora vamos, esperança, não temos milhares de anos de entropia pra nós atrapalhar nos sistemas, existe energia nessas grandes cidades da era dourada. Os materiais ainda podem estar conservados.
Matheus, mesmo sem saber porquê, sabia que Paulo poderia estar certo. Tanto pela parte dos sucateiros quanto pela parte da energia. Eles dificultaram a própria vida querendo construir do zero em um acampamento no meio do nada.
Voltou-se para o mapa e no caminho que deveriam percorrer.
— Senhor Revân? — era uma voz mais aguda.
— Ah, olá. — Paulo sorriu para alguém que vinha pela porta atrás do Exo.
A escola de Revân tornou-se o QG deles. Ao menos a princípio, era o que dizia Lucas. Revân era professor e dava aulas para algumas crianças, que aumentaram em número depois da batalha dos seis frontes. Quando Matheus construiu o pequeno gerador e alguns tablets, não imaginava a proporção que iria tomar.
O cheiro de mofo estava quase imperceptível, o armário que antes era apenas um com poucos livros, se multiplicou para três e cheios de livros dos mais variados assuntos. Revân já devia ter lido diversas vezes todos eles. A luz não estava acessa, mas Matheus reestruturou para que tivesse mais iluminação. As paredes estavam pintadas, mas algumas das crianças fizeram desenhos nelas, devido a aula de arte. Tinha o desenho e todos eles batendo nos decaídos e protegendo as crianças. Matheus achou particularmente bonito.
O fato do próprio Revân em pessoa ter estado no fronte mais promissor era muito benéfico, os pais se sentiam mais seguros vendo sua figura. E outro pela esperança devolvida. Embora o nome não funcionasse muito para o marketing. Não tem um nome ainda deixava as pessoas confusas.
— Mas não criaram o nome? — O pai coçava a cabeça.
— O nome é esse. — Matheus já aguardava por ao menos dez perguntas pra explicar.
Matheus virou-se. Era um rapaz, devia estar no começo da vida. Cabelos lisos, olhos azuis escuros. As roupas com um corte ali e um remendo aqui. Matheus percebeu quando o semblante dele mudou ao vê-lo.
— Sou outro Exo. Meu nome é Matheus e o... — Matheus desenrolou a língua para falar sem parecer desrespeitoso — Senhor Revân, ele saiu.
— Obrigado.
— É só com ele? — Paulo o chamou, para a surpresa do Exo.
O rapaz pareceu vacilar.
— Acho que sim, obrigado! — ele correu.
Um pequeno silêncio desconfortável, e olhares pela parede e chão do prédio.
— Nós protegemos eles.
— O que? — Matheus virou-se para Paulo. A mesma expressão do olhar pra parede.
— Deveríamos parecer mais acolhedores. Mais empáticos. Poder ajudar... — Uma leve melancolia na voz do desperto. Matheus sabia que Revân leria o amigo rapidamente.
Matheus respirou fundo e olhou para os mapas novamente, tentando achar alguma informação nova, mesmo sabendo que não encontraria mais nada. Não era o cérebro melhorado de Exo, era o próprio. Saberia dizer qual rua era qual se chegasse na cidade naquele mesmo dia.
— E quando vamos? — Matheus enrolou o primeiro mapa.
— Então você topa? — o brilho. Até o cabelo dele parecia mais vermelho.
— Você precisa pedir pro Lucas digitalizar essa tralha toda, você vai perdê-los em dois anos. — Matheus sorriu. — Somos amigos Paulo. Morremos juntos e revivemos juntos.
Paulo veio em sua direção e o abraçou.
— Me larga antes que eu desista disso. — Matheus se pudesse ficar vermelho, ficaria naquele momento. — E já sei que você tem tesão em Exo.
— Cala boca. — Paulo se recompôs. — É pelas pessoas que quero fazer isso. — O brilho esperto acompanhou o sorriso de lábios. — Nós não precisamos disso, nem eu nem você. Temos Soutre e Fenrir para nos curarmos. Mas se dermos aos médicos o poder de curar as pessoas, é como doar a luz do viajante para eles.
Em sua mente de nada. Sorriu. Possível que Soltre teria dito o mesmo para Paulo.
Paulo deu a volta e começou a pegar os mapas e a guardá-los delicadamente. Nem parecia um titã.
— Não podemos obrigar as pessoas. — Os lábios de aço de Matheus mexeram-se antes que ele pudesse impedir.
— Obrigar as pessoas? — Paulo parou no meio do movimento de colocar os mapas em uma caixa.
— Você disse que deveríamos parecer mais acolhedores. — Matheus o olhou nos olhos — Mas não podemos obrigar as pessoas que não se sentem bem próximos a nós. Eu posso salvar todas as pessoas dessa cidade duas vezes, vezes dois, e não será o bastante.
Paulo piscou algumas vezes. Balançou a cabeça em afirmativa lentamente.
— Deixe estar Paulo. Sei que quer ser necessário pra todos, porém o melhor que você faz é ser você. Deixe as pessoas sentirem. Não podemos obrigá-los. Algum dia, se veremos esses dias eu não sei, seremos o símbolo de esperança.
Um sorriso genuíno apareceu.
— Obrigado meu amigo.
— Agora façamos as malas, vamos para Europa. Fiquei sabendo que é excelente essa época do ano. — Matheus riu da própria piada.
— O decaído da casa dos demônios me emprestou uma casa com uma vista maravilhosa — Paulo gargalhou.

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