? - Terra - Paulo
Missão: fazer ronda na cidade. A muralha... já está deste tamanho? Ajudou todos que podia no caminho. Eles precisavam de maquinário maior para subir as pedras. Ou de um guardião. De vários na verdade. Eles precisam subir as pedras enormes até o topo. Contou cerca de quinze que ajudou a subir. Paulo pensou em Faraday e Revân, guardiões balões para levarem aquelas pedras. Pensaram nos portões?
Dado o tamanho do projeto da cidade, Paulo levaria mais de um dia, talvez uma semana, para finalizar a sua missão. Estava contente por estar fazendo essa ronda. Gostou de ver as pessoas trabalhando. Observava cada um com suas roupas sujas e algumas vezes puídas. Rindo e tomando água nos andaimes das casas recém construídas. Ele sorriu junto com a cidade. Com as pessoas dela. O ar sempre trazia vários aromas e temperatura. Frio e perfumado, quente e denso. Muito bom.
Alguns metros depois, na sombra, um pai deitado em um pedaço de concreto com uma criança ao lado deitada junto. O pai fez seu melhor com as barras de aço enferrujadas entortadas para o lado do chão. Paulo interrompeu uma briga por um pedaço de pão. E depois de ser confrontado, arrumou outro pedaço de pão. Reclamaram do mesmo jeito. Começou a andar. Discussões logo se dissipavam à medida que ele chegava. Seja por medo ou respeito, ele gostava. Ainda temos tanto a melhorar.
Encontrou onde seriam as plantações. Alguns agricultores explicavam para os menos experientes como fazer o plantio dos poucos grãos que tinham, como identificar as sementes, as plantas que eles seguravam. Conseguia ver quem aprendia e quem não. Os campos estavam vastos e longe da muralha, não podia haver risco de que o sol seria tampado. Guardiões apareciam ocasionalmente. E como se soubessem se identificar acenavam para Paulo. Ele retribuía o gesto. Olhou o comunicador na cintura e pensou por que ele não tocava. O que ele faz... droga.
Encontrou um corpo. Alguns hematomas, não eram pancadas, alguma doença. Passou no rádio a localização, havia uma equipe para o descarte. Pensou como era frágil a vida. Precisavam urgente exigir pessoas para vasculhar o mundo atrás de plantas medicinais. Ele gostaria de fazer essa exploração. Ser o líder dela na verdade. Querem destruir isso tudo.
Pensou nos decaídos, pensou em como eles se aproveitavam das sucatas da era dourada. Em como as pessoas da cidade precisavam daquela tecnologia para reconstruir o presente. Em como ele mesmo queria trazer a tecnologia até a cidade antes que eles colocassem aqueles três dedos e maculassem a história. Tenho certeza que há muito dessa tecnologia ainda.
Encontrou o centro médico. Poderia se dizer o "centro médico". A precariedade ainda era visível. Parecia haver cirurgiões, médicos e alguns enfermeiros. O homem pediu, pelo viajante, que salvasse uma criança. Era o médico chefe. Ela cortou o pé em um prego enferrujado. "Não temos antitetânica." Não podia ajudar. "Pra que você serve então?" Paulo baixou a cabeça e seus passos pareciam mais pesados. Uma mulher chorava ao fundo.
Lembro... A primeira vez que ouviu alguém chorar. De como a força que o viajante lhes deu não adiantava de nada quando a morte aparecia para os não reerguidos. Para os não guardiões. Em como a menina chorava por não ter conseguido trazer sua mãe a cidade e em como seu pai morreu tão pouco tempo depois. Toda aquela força bruta, todo aquele poder, todo o universo e poderes se dobrariam a sua vontade. Mas nada poderia fazer por uma criança com o pé cortado.
Preciso informar o conselho, mas os decaídos... Logo estariam na porta. Estava preso ali. Por quanto tempo? Não saberia dizer. Ele queria liberdade logo. Mas isso só viria com a vitória sobre os Decaídos. As imagens… e o relatório de Lucas, entretanto, o faziam duvidar. Embora achegassem mais e mais pessoas e guardiões todos os dias. O que vamos fazer?
Os campos de treinamento. Mal estavam alimentados, e já precisavam aprender a atirar. Se defender. Paulo olhou para o Viajante flutuando inerte no centro da cidade e fez um pedido interno. Que consigamos honrar o seu chamado. Sem resposta, como todas as outras vezes. Eu sei que Perun irá entender se eu pedir.
Paulo já estava formulando o relatório de permissão para saída e coleta de suprimentos e exploração das antigas colônias. Buscar remédios conservados dentro de hospitais. Ele já havia triangulado a cidade mais próxima de onde estavam, só precisava de voluntários.
É difícil observar e não fazer nada.
E na sua cabeça "Os pássaros pararam de cantar e o único som que ouço é de vento. Vento de tempestade. Aurora pode dizer melhor." Quando Paulo ia pegar o comunicador, ele tocou. Imerso em pensamentos, quase o amassou do susto.
- TODOS OS GUARDIÕES, URGENTE, OS DECAÍDOS FIZERAM UM CERCO, REPITO, TODOS OS GUARDIÕES, ALERTA, SE APRESENTEM NOS POSTOS DE COMANDO, OS SEIS FRONTES, JÁ! - Uma descarga de adrenalina fez o corpo inteiro do titã tremer.
Finalmente começou. Paulo retirou o fuzil de assalto das costas e disparou para o fronte mais próximo. Era hora de botar os decaídos para correr.

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