? - Terra - Matheus-10
- Tire esse dedo do gatilho. - Matheus disse.
O homem sem postura e armadura olhou. Piscou lentamente.
O homem sem postura e armadura olhou. Piscou lentamente.
- O que disse?
- Eu disse... - Matheus aproximou-se devagar, tocou com o indicador as costas da mão do homem, que não teve reação - Tire o dedo do gatilho.
- Mas não é dessa forma...
- Se você se assustar e por reflexo fechar este dedo, pode provocar um acidente. Ou pior. - Matheus lembrou do acampamento dos decaídos. Ele observou o homem obedecer.
- Ob.. Obrigado. - Ele tremeu um pouco.
— Vai dar tudo certo. — Matheus tentou sorrir. O homem retribuiu, com olhos fundos e mãos trêmulas. Provavelmente estava há um dia sem dormir.
Estava ajudando na reconstrução da rede de comunicação da cidade, era muito difícil lidar com rádio de ondas curtas. Se seu esquadrão tivesse mais tecnologia poderiam ter avisado muito mais cedo sobre o ataque decaído e recebido reforços. Ou mesmo Revân e seu esquadrão fora da cidade.
Ele observou com pena, algumas pessoas dormiam em muros e suas armas estavam jogadas ao seu lado. Estavam fazendo turnos dobrados enquanto os guardiões estavam em missões - às vezes, até triplicados. O medo estava se instalando cada vez mais forte nas linhas. Os decaídos estavam vindo e estavam vindo com força.
- Vamos ter que instalar antenas em diversos metros, investigar o raio de captação e fazer as triangulações. - Era um engenheiro conversando com uma equipe de pessoas.
- Vamos erguer a torre principal no ponto mais alto da muralha, como um farol, que capte tudo e envie para o centro de comando. - Matheus disse mais para si do que para as pessoas em volta, mas chamou atenção com sua voz grossa e robotizada.
- Não entendi senhor.
- Eu não sou nenhum senhor - O Exo disse. - Não deve ser no centro da cidade, precisa ser estratégica. Em algum ponto do círculo que forma a muralha.
O Exo apontou em torno deles, a muralha estava a um quarto de altura do que os projetistas estavam prevendo.
- Pode ser um posto de comando ou algum local que será o controle de operações da cidade, mas precisa ser muito alta, canalizar todas as frequências e passar para algum setor. - Matheus explicava enquanto mexia em um dos rádios.
- E enquanto não temos isso? - Poderia ser uma afronta, Matheus não ligava.
- Vamos usar isso aqui - Apontou para o rádio - potencializaremos o sinal a ponto de conseguir obter o maior raio e iremos testando. Deem um comunicador na mão de um guardião e vão conversando com ele enquanto se distancia da cidade.
- Onde aprendeu isso? - O engenheiro chefe estava admirado ou incrédulo.
- Eu não sei, mas parece obvio.
O titã começou a andar, procurando novas tecnologias ou algo pra arrumar. Não percebeu quando o sol desapareceu.
Matheus não estava nem um pouco cansado. Parou um pouco para admirar as estrelas e a cidade. Seu modulador de visão parou em um casal abraçado e sorrindo. "Fabiana" aquele nome que surgiu em sua mente e aquela lembrança. Aquele nome sem significado. Sem passado. Sem presente e nenhum futuro. Tudo que restou para o titã era a tecnologia e a especialização nas armas.
- Noite longe, hein - Uma voz a direita.
Matheus observou outro Exo. Ele tinha um tipo de chifre na cabeça. Único no meio da testa.
- Com os decaídos à espreita, fica ainda mais. - Matheus continuou a conversa.
- Ah nem me diga, mas é o que eu sempre digo, melhor uma noite do que noite nenhuma.
Matheus juntou as sobrancelhas mecânicas.
- Você sempre diz isso?
- Não.
O Exo riu e Matheus sorriu.
- Matheus 10.
- Cayde 6. - Apertaram as mãos.
O rosto azul de metal coberto pela capa característica dos caçadores. Os olhos azuis e o modulador amarelo. A armadura era simples, nada muito exibicionista.
- Faz muito tempo que está na cidade? - Matheus o olhava.
- Não, cheguei faz pouco tempo, estou tentando me enturmar ainda, alguma dica?
- Continue com seu bom humor, vai ser preciso. - Matheus sorriu.
- Vou lembrar disso, até mais.
- Se cuida Cayde - Matheus observou o novo amigo ir embora por um dos novos becos da cidade.
A luz que iluminava o local piscava. O casal havia sumido. Matheus gostaria que o nome "Fabiana" também. Talvez que tivesse mais sentido pra ele, assim como construir naves, sistemas, analisar armas e enfrentar os decaídos. Proteger as pessoas e seus amigos. Poderia ele ser assombrado por lembranças que ele nem tinha?
- Fenrir. - Matheus chamou.
- Sim Matheus. - O fantasma projetou-se.
- Quem eu era?
O único olho brilhoso azul olhou para baixo e vasculhou o chão, como se as respostas estivessem lá. Matheus encostou em uma das paredes e deixou escorregar lentamente.
- A única coisa que sei que era uma boa pessoa, boa o bastante para empunhar a luz.
- É errado eu querer saber? - Matheus sentou-se, não havia cansaço, mas estava sentindo um peso enorme nas costas.
- Eu não sei Matheus. - Fenrir tinha pesar nas palavras.
- Vamos descobrir? - Os olhos estavam pesados, mas um sorriso sincero apareceu.
- Juntos. - Fenrir desapareceu.
O Exo começou a adormecer e enquanto o sono o levava, imaginou como seria uma vida sem tiroteios ou medo. Imaginou sua vida antes de virar guardião. Era belíssima.

Gosto do tom quase melancólico, remetendo ao cenário mórbido da desavença de uma calamidade 👌🏿
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