? - Terra - Atreus

Estava treinando a mira. 
Cada vez atirando mais longe. Não mirava em pássaros, só fingia atirar neles. Seria uma maldade só os coitados terem sobrevivido ao grande colapso para morrerem agora. Treinava o vácuo também, ele era importante. Não tinha tanta raiva interna quanto Lucas para produzir o fogo.
- Eu não sei como fiz - O caçador deu de ombro. - Eu só deixei fluir toda a minha raiva e então eu pegava fogo e minha arma também. E eu queria ver os decaídos pegando fogo.
- Ahn... - Atreus sabia exatamente como ele se sentia quando dizia não saber como, só fazer. 
O objetivo era atirar. O mais longe possível, cada vez mais. Às vezes ele fechava os olhos para dificultar. Depois andava bastante para ver se o alvo foi acertado. Milímetros do centro. Precisava ser perfeito. "Por que?" perguntou Morpheus. 
- Ahn... porque...
- Você precisa se entender melhor. - O fantasma tinha se projetado enquanto andavam de volta para montanha. Três mil e quinhentos metros de distância. 
- Eu sei aqui dentro - Atreus apontava com a mão direita para o peito. - Mas quando chega aqui se embaralha tudo. - Atreus finalizou apontando para a cabeça.
- Não é igual atirar, que você sabe tão bem. - Morpheus sabia entendê-lo.
- Ahn... Sim. 
Ele se posicionou. Mais uma, duas e três vezes. Sempre milímetros de distância do centro da pedra. Trocou a pedra, já tinha buracos de mais. 
- Não está bom mesmo com esses milímetros? - Morpheus observava a pedra furada.
- Não. - O barulho da pedra no chão tremeu algumas coisas em volta.
Atreus pintou novamente os círculos. Voltou, perdido em pensamentos. O vento gelado levava a sua capa para o lado contrário. O cheiro do orvalho deixava sua mente ainda mais ligada. 
Os decaídos logo mais estavam na porta da cidade. Ele teria vários troféus novos para colocar em sua casa. Deveria pensar logo em um local dentro da cidade, fora dela poderia ser um perigo para o seu loot. E baús maiores e uma casa maior. Poderia ter um local de tiro ao alvo na cidade, um local para praticar, assim como estava fazendo ali. Será que havia isso? Os civis estavam sendo treinados para usar as armas? Porque se não um acidente poderia vir a acontecer e algo como aquele dia dos decaídos poderia ocorrer. Não exatamente como os decaídos, mas com pessoas. Machucá-las. E nem todo mundo tem um fantasma.
Barulhos no meio da mata, parecia passos. Atreus olhou pra frente e viu um pássaro enorme, tão grande quanto ele. A mira foi rápida, mas o pássaro mirou com uma arma de volta tão rápido quanto. Não era um pássaro.
- Que falta de responsabilidade é essa? - Ele tinha um capacete dourado, mas dava para ver seu rosto humano, uma capa muito bonita. Nas mãos um tipo de braçadeira que emanava fogo. Sua roupa tinha um ar característico de inteligência. Sua arma parecia mais avançada do que tudo que Atreus já havia visto. 
- Você é um arcano, 'né? - Atreus estava com a mão no queixo.
- Era pra me impressionar? - Respondeu, com certeza, o arcano. - Está atirando aqui faz horas e não avisou a ninguém.
- Ahn... Eu tinha que avisar?
- E se alguém passa pela sua linda pedra pintada. - O fantasma do guardião apareceu, ela tinha uma voz feminina.
- Não tivemos a intenção - disse Morpheus se materializando.
- Nunca ninguém tem, até acontecer. - O arcano cruzou os braços. - Por que tantos tiros?
Atreus não iria entrar em assuntos mais profundos com aquela alma antipática. Ele olhou para Morpheus que parecia estar olhando de volta pensando "não sei nem por onde começar." Os dois fantasmas desapareceram. 
- E então?
- Quero um tiro perfeito. - Atreus disse finalmente. 
A sobrancelha grisalha por dentro do capacete se arqueou. 
- E mesmo depois de todos aqueles, não está contente. - O arcano tinha um braço no peito e outro apontando, mas parecia admirado. Parecia menos bronca agora.
Atreus balançou a cabeça negativamente. Os braços do arcano cruzaram novamente. O dedo indicador dele ficou batendo no braço. Algo nos olhos dele pareceram brilhar.
- O que acha que te forçaria a atirar perfeitamente?
Isso Atreus nunca se perguntou. O tiro perfeito exigiria o vento a favor, a respiração e concentração do tiro, não forçar a atirar.
- Ahn... Uma arma melhor.
- A melhor arma na mão do pior atirador pode ser o pior tiro de todos. Qual é o seu motivo de atirar? - Atreus abriu a boca, mas nada chegou a ela. Respirou e fechou a boca. Motivo? Ele só atirava até o momento. Eu tenho motivo. 
- Ser melhor?
- É uma pergunta? - Reprovação - Você quer ser melhor. Mas... por que?
- O loot. - Atreus riu. 
- Ora, melhore - Reprovação aumentando. Uma piada sempre ajudava, agora não. - O que te motiva guardião?
Atreus sentiu algo em sua mente. Como achar aquele objeto perdido, alguma arma que perdeu e finalmente a encontrou. Aquele equipamento das pernas que iria ajudar a pular melhor. Sua mente e coração conectaram. 
- Pelos meus amigos. - Sorriu, feliz com sua própria resposta. - Eu quero atirar perfeitamente pelos meus amigos. Um dia vão precisar de um tiro assim e eu quero ser responsável por ele.
Silêncio. Os olhos do arcano brilharam ainda mais. 
- Meu nome é Osíris - Ele andou um pouco e ofereceu a mão para Atreus apertar. - Qual o seu nome?
- Atreus. - O caçador apertou a mão dele e a sentiu quente.
- O dia que aplicar este tiro, Atreus, não naquela pedra, mas o que precisa e no que precisa, me procure. Estarei ansioso por ouvir sua história. - Ele foi embora pela floresta. - E tome cuidado com as pessoas.
Atreus voltou ao alto da pedra. Morpheus se projetou e estava ao seu lado. Pelos meus amigos. Ele fechou os olhos. Puxou o gatilho.
Não voltou à pedra para conferir.


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