? - Terra - Paulo, Faraday 12 e Revân 9 PT. 2

Paulo não estava convencido se poderia confiar naquele Exo. Revân tinha seus olhos escondidos por causa da armadura natural da sua cabeça de lata e mesmo assim Paulo confiava nele. Mas mesmo podendo olhar nos olhos de Faraday não conseguia acreditar no Exo. Deitado, não conseguiu dormir sob o olhar dele. "Acha que tem algo de errado?" disse Soltre dentro de sua mente. "Eu não sei, mas tem algo nele que é um segredo. Entretanto... não sei se é ruim." Quando conheceu Lucas sabia que poderia confiar nele assim como poderia confiar que o dia viria depois da noite. Ele tentou afastar o pensamento, mas seus sentidos já estavam alertas. "Qualquer sinal eu vou descarregar a arma." 
Aquela energia destrutiva na arvore era realmente um ensinamento ou "Tome cuidado, veja o que eu posso fazer."? Paulo havia treinado escondido e conseguido progresso. Revân tinha sido ainda melhor e projetado um tipo de energia com um golpe. 
- É só concentrar em uma das mãos e impulsionar pra frente - Ele tencionou a mão e o braço direito. Puxou para trás e como se estivesse empurrando o espaço, seu braço projetou-se para frente com os dedos abertos. A energia de vácuo rodopiou e desapareceu. - Claro que é só pra quando acertar que vamos saber o efeito. - Revân disse feliz.
- Desintegração - O Exo misterioso disse. - A energia de vácuo é consumida e se transforma em vácuo. 
Faraday seria excelente para animar uma festa.  
A paisagem era familiar para Paulo: montanhas geladas e nevascas incessantes. Para Revân era uma novidade e um divertimento, ele ficou na lua por muito tempo. Já o divertimento de Paulo era vê-lo interagir com cada ambiente novo que eles visitavam. Observando pedras, árvores, neve e animais. O tempo bom com o sol, o cheiro da chuva e o gelo preenchendo todo espaço das vias aéreas. Ele era um robô, mas sentia tudo aquilo como humano. 
Se a contagem estava certa, eles tinham mais dez dias para fazer o relatório e entregar a Perun. Desde que chegou na cidade era relatório atrás do outro sobre manobras e novidades nas frentes da cidade. Seis frentes. Eles deviam melhorar a segurança, embora os decaídos não tenham atacado diretamente. Ainda.
Embora a desconfiança permanecesse, Paulo aprendeu a confiar no instinto natural de Faraday. Ele tinha facilidade com os ambientes, seguia rastros e se guiava bem sobre as estrelas. Todos eles combinaram que não poderiam descansar enquanto não tivessem feito um progresso verdadeiro para a busca deles. Se não fosse por Kisuke não estariam marcando os dias, agora faltavam cerca de uma semana, chegariam atrasados se não corressem. O ritmo era dado por quem estava mais animado dos três. Hora Faraday, hora Paulo e Revân. 
- A máquina de músculo cansou? - Faraday flutuava enquanto olhava mais longe.
- Não senhor balão. - Paulo estava prestes a mostrar o que tinha aprendido com o vácuo naquele monte de aço.
As arvores haviam sumido há alguns dias. Entre eles era apenas algumas elevações de neve e nenhum tipo de horizonte pois a nevasca não os deixava ver. Conforme iam caminhando foram percebendo contêiner, uma ponte enorme quebrada e maquinário enferrujado. Uma fissura no chão havia água congelada. 
- Um porto? - Revân disse.
- O que? - fez Paulo franzir o cenho. 
- Na era dourada da humanidade, as pessoas exportavam e importavam materiais via aquaviário. Pelo mar, neste caso. É um tipo de modal. Lógico, quando não tinham a estrutura necessária para enviar por transmaterialização. - Revân estava sério como jamais foi.
- E era mais seguro levar pelos navios, pois a transmat era confiável para objetos mais pesados, mas produtos de consumo era perigoso. Questão de saúde. - Faraday completou.
- Como os dois sabem disso? Está no banco de memória de vocês? - Paulo riu.
- Eu li - Faraday e Revân responderam ao mesmo tempo.
- Agora estão me dando medo, parem - Paulo começou a andar na neve mais rápido. 
- Eu acordei em uma biblioteca. - Faraday parecia cheio de si.
- Eu acordei na lua e acreditem, haviam muitos livros lá para ler sobre muitos assuntos. Até o Matheus chegar, fora os decaídos, tive muito tempo para ler. Mais de uma vez. - Revân estava animado novamente.
Eles andaram mais alguns metros até encontrarem o fim da linha de fato. A terra de neve acabava e dava visão a vasto oceano mais congelado na ponta e extremamente gelado ao longe. Sem sinal de tecnologia para ajudar a reerguer a humanidade.  
- Que pista ruim essa dos Senhores do Ferro. - Paulo disse.
- O que é...? - Revân começou a falar.
Paulo virou-se para ele. Revân estava com uma das mãos em concha atrás da orelha, ele parecia querer ouvir por trás de todo aquele barulho da tempestade de neve. 
- Eu ouço - Faraday levantou a mão que levou a seu fuzil de batedor. - Música?
Kepler e Kisuke se projetaram. Eles estavam absortos pelo som.
- Música anterior a Era Dourada. - Disse Kisuke.
- Música clássica. - Kepler completou.
Paulo estava tentando ouvir, mas só tinha o vento gélido em seus ouvidos. "Deve ser coisa de robô". Soltre em sua mente resmungou "Estou ouvindo também, não é muito longe." - "Você é robô também, lembra?" - "Vamos logo Paulo". Os dois Exos estavam indo na frente e Paulo sacou o fuzil automático que levava para fazer a retaguarda, poderia ser uma nova estratégia dos decaídos. 
Andaram cerca de dez metros, e um som extremamente alto e terrível soou.
- Dessa vez eu ouvi. - Paulo tentava tapar os ouvidos, a arma atrapalhava.
Quando o barulho cessou, ele olhou para Revân, que tinha o canhão de mão apontado para Faraday.
- Revân, abaixa isso...
- Olha pra ele... - Revân balançou a arma.
Faraday estava se retorcendo e tremelicando. Se contorcia como se algo o cortasse por dentro. Faíscas laranjas se projetavam e saltavam de seu corpo. Eletricidade rangia entre seus membros mecânicos.  
- Ukhodite. - Era uma voz mais mecânica e um sotaque carregado.
- É Russo. - Revân disse. - "Vão embora".
- Otprav'te moyego syna.
- Mas quem é seu filho? - Revân baixou a arma e deu um passo em direção a Faraday. 
Mais uma vez aquele som terrível. Faraday caiu no chão e seu fantasma, Kepler, foi junto a ele. Lançava raios de energia em sua direção. O som cessou. 
- Faraday, responde por favor? - Revân estava ainda mais preocupado. Ficou do lado oposto de Kepler.
- O que... - Ele tossiu, Paulo achou que iria vomitar - aconteceu.
- Algo ou alguma coisa estava falando por você. - Paulo segurava bem firme o fuzil automático em mãos.
- Eu não lembro de nada. - Faraday foi levantando aos poucos com a ajuda de Revân. - Porém, eu não consigo tirar o senhor Felwinter da mente. E um nome. Siva. 
- Eu gravei tudo - Disse Kepler. - Talvez a tecnologia esteja lá, mas somos poucos para reivindicá-la.
- Voltamos então? - Faraday parecia desgostoso. - De mãos abanando? 
- Eu não diria isso - Paulo disse. - Temos a gravação do seu fantasma e mais a gravação da minha visão. E esse nome. 
Faraday não pareceu aliviado, mas por aquele momento teria que engolir. Revân guardou a arma e olhou para o horizonte.
- Eu já enfrentei uma coisa pior na lua, melhor irmos embora. Ao menos naquilo eu sabia onde acertar. - Ele caminhava de volta.
- Não aconteceu nada com você? - Faraday parecia indignado.
- Eu estava congelado de medo se é isso que quis dizer. - Revân estava em modo de defesa.
- Você falava em Russo, Revân entendia. Seja lá o que foi... isso, sabia dessa informação. - Paulo complementou. 
Alguns segundos de introspecção.
- Eu espero que os outros tenham tido mais sorte do que nós - Disse Faraday começando a caminhar, ele parecia ter algo na boca que o gosto era péssimo. 
Paulo respirou fundo e começou a andar também. Era muito difícil ver o copo meio cheio naquela situação, ainda mais depois de passar por uma possessão. O titã iria tentar ser o otimista por enquanto. Havia muitas coisas que eles ainda não entendiam e poderes que eles desconheciam. A imortalidade parecia algo vital pra eles naquele momento. Explorar aquelas terras sem a certeza de voltar? Ele não conseguia imaginar. Ao menos agora ele não sentia-se só um instrumento de guerra, de morte e destruição. Ele era um explorador. 




 

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