? - Antiga Rússia - Lucas e Paulo PT 4

Paulo parecia resmungar enquanto dormia, ele se torcia e retorcia no chão. Estava assim à meia hora. Lucas não chegou perto nem foi perturbar seu sono. O desperto levantou de uma vez, ofegante. 
— Bom dia, flor do dia. — Lucas estava de pé ao lado de uma fogueira há muito apagada. O corpo gigantesco do decaído derrotado ainda permanecia ali. 
Paulo fazia sua revisão de ressurgimento, mesmo não tendo morrido. 
— Eu dormi muito?
— O dia e a noite toda. — Lançou um pedaço de carne para Paulo. — Agora come.
— Perdemos a droga de um dia todo.
— Ganhamos uma batalha com muito esforço, podíamos ter morrido. — Lucas andou de um lado para outro. — Não perdemos nada que não possa ser ganho novamente. 
O sobrevivente não parecia convencido.
— Sono ruim?
— Pesadelo.
Um silêncio perdurou por eles enquanto saboreavam a comida. Lucas notou que o desperto olhava fixamente para o corpo do inimigo, como se de alguma forma ele tivesse ganho o poder de ressuscitar também. 
Os sinais de decomposição começaram a surgir.
— E a capa? — Paulo o olhou entre uma mordida.
Lucas mostrou desanimado o buraco de bala, alguns pontos dela tinham buracos menores do resquício de queimado. Ele gostava deveras daquele tecido e não poderia usar a capa do decaído como substituta, não queria chamar atenção. 
— Uma capa a menos, uma vida a mais. — Deu de ombro. — Pelos cálculos de Aurora, temos mais cinquenta dias seguindo linha reta para onde os acampamentos debaixo do Viajante estão. 
Um aceno de cabeça.
— Com base nessas paradas para batalha, esse número pode dobrar. 
A mastigação foi suspensa.
— Ficamos fora do radar então?
Lucas ficou pensativo. Era fácil para ele conseguir se esgueirar e esconder nas arvores. Infelizmente para o colega, mais parecido um desastre da natureza, não era tão fácil ficar longe das batalhas. Às vezes, pensou Lucas, a experiência está em não batalhar.
As patrulhas dos decaídos tinham triplicado desde que eles saíram do navio. Estava claro que eles queriam pilhar o planeta ou mesmo o que restou dele. Mas tinha algo mais. Eles deviam sair de vista desses sucateiros do espaço enquanto estavam com este objetivo.  
Os símbolos nas costas, as cores e a maneira de agir de cada "tribo". O tamanho do monstro que estava ao lado deles e o quão maiores aqueles desgraçados poderiam ficar. Pior, quanto de tecnologia eles poderiam ainda ter? Ficar no caminho deles por enquanto deveria ser o segundo objetivo e a prioridade durante a caminhada. 
— Vai ser preciso — Mais uma pausa. — Soutre fez a armadura nova pra você.
Paulo olhou em volta e suas manoplas e torço foram trocadas pelo metal da armadura do decaído. 
— Você sentiu alguma coisa durante o fim da batalha? — Lucas sentou-se no restante de arvore perto de Paulo.
— Senti?
— Alguma coisa diferente? — Lucas tinha uma sobrancelha levantada — Seu braço brilhou em azul, parecia algum tipo de corrente elétrica. Então o soco pareceu mais forte, devastador na verdade. Eu analisei o crânio do decaído. Ele não só afundou a mandíbula dele, por dentro é como se tivesse fritado. Se não tivesse morrido pela contusão no cérebro, teria morrido pelos choques. Você caiu, mas ele estava soltando fumaça e permaneceu assim por bastante tempo. 
Paulo se interiorizou por alguns segundos antes de Soutre aparecer no ar.
— Senti isso também, como se toda a movimentação dos socos tivesse gerado uma energia cinética e culminado em uma explosão. 
— Eu me senti mais rápido, mesmo com apenas um braço, era como se toda minha raiva durante os socos quisesse explodir de uma vez no rosto desse maldito. E foi isso que eu fiz, deixei fluir.
— É a luz do Viajante manifestando de outras formas. Isso irá acontecer com o tempo com vocês dois — Aurora apareceu — Existem energias no úniverso e podemos moldá-las ao nosso favor, eu sabia que outros já faziam isso...
— Outros? — Paulo parou no meio de uma mordida.
— Acharam que eram os únicos? — Soutre riu.
— Quantos? — Lucas agora estava com as duas sobrancelhas levantadas.
— Muitos. — Aurora flutuou. — Não mais que humanos, mas meus irmãos ainda estão andando pela terra... pelo universo atrás de pessoas que possam empunhar a luz do Viajante. Já faz mais de anos que estávamos procurando por vocês. Muita coisa aconteceu.          
Mais um momento de silêncio. Os dois fantasmas desapareceram. Lucas soltou um assovio e olhou para o céu. Paulo permaneceu comendo calado encarando o cadáver.
Toda vez que Lucas tinha esse tempo para pensar seu peito pesava. Todas as questões do mundo pareciam lhe encontrar naquele momento, como se ele fosse um ponto de escoamento de todo o questionamento do universo. Existiam mais como eles? O que devem ter passado? Eles se questionaram sobre como usar esses poderes? Lucas tinha como companhia Aurora, Paulo e Soutre, mas e os outros? 
Um vento gélido passou, a capa não levantou tanto devido ao buraco da bala do decaído. Com o esquecimento, a imortalidade. Havia morrido dentro do navio e agora está indo em direção a uma esfera gigante em busca de pessoas refugiadas enquanto havia monstros espaciais os atacando dia sim dia não. O mundo parecia pequeno diante da imensidão de problemas. A humanidade encarando a extinção e eles se apegavam a cada milímetro de esperança que poderiam ter de dias melhores. Respirou fundo e o peso ficou mais leve. Os poderes não ajudariam a resolver tudo, mas um problema de cada vez.
—Vamos andando então. — Paulo estava de pé e observava em volta. — Nossos amigos lobos estão sentindo o cheiro dessa monstruosidade.
Lucas não disse nada e seguiu em frente. A sorte sorriu em relação aos decaídos, mas não em relação a comida. Eles estavam fracionando a pouca que tinha. Morrer de fome não era uma opção mesmo. Por dias afio comeram uma tira de carne congelada. Deixavam algumas horas dentro da neve para durar mais tempo. As montanhas começaram a dar espaço a campos mais longos e o Viajante já estava visível a cada dia que passava. Aquela esfera branca, por algum motivo, lhes dava esperança. A caminhada parecia menos penosa e as pernas não doíam tanto. 
Quarenta dias haviam passado, eles estavam chegando. Noite. Vários gritos de desespero. Lucas nunca tinha sentido aquele tipo de angústia, nada tinha doído tanto.
Paulo e Lucas correram em direção ao local, os decaídos estavam atirando em direção a pessoas que pareciam estar a mais tempo na estrada do que eles. Uma mulher com muita determinação tinha uma escopeta em mãos atirava nos decaídos. Por um momento Lucas se demorou nos detalhes da arma. Até Paulo disparar a primeira bala contra um decaído que iria atacar uma garotinha loira ao lado dessa mulher. 
— Tem muitos deles, protege o pessoal, rápido. — Paulo atirou cadenciadamente, dando preferência a precisão, ele não podia errar nenhum tiro. 
Lucas gritou palavras de comando e as pessoas começaram a correr em sua direção, os decaídos avançavam em quantidades que ele e Paulo nunca tinham visto. Ele entrou em desespero quando viu uma única pessoa ser atravessada por quatro lanças diferentes e um grito de desespero cortar o ar em suas costas.
Aquele homem não poderia mais voltar. Ele não tinha um fantasma.
A angústia misturou-se com outra coisa preenchendo todo seu tórax. Lucas acertou balas certeiras em três decaídos com o canhão de mão. As pessoas continuavam a correr, elas não chegaram tão longe para cair agora.
Paulo estava no meio da briga, mas parecia dançar. Nenhuma bala parecia desperdiçada, as lanças passavam em volta, como se ele fosse uma fumaça, as balas dos inimigos pareciam fugir. Então três capitães apareceram. Ainda que tivesse sido acertado duas ou três vezes, Paulo continuava de pé quebrando o pescoço de um dos capitães. 
Ainda mais decaídos seguiam em direção a Lucas, ele continuava atirando. "Viajante", pensou "por favor, me dê forças para proteger essas pessoas".
Então a raiva.
Sim, isso Lucas conhecia bem.
Crescente no peito, parecia um condutor, um arrepio percorrendo todo seu corpo. Ele continuava atirando e eles continuavam a vir. Os olhos de Lucas encheram de lágrimas ao ouvir a criança pedindo socorro. 
Um único grito.
— Não deem mais um passo, eu não vou repetir! — Ele gritou para a legião.
Quando o aviso foi ignorado, Lucas apontou a arma em direção aos decaídos, sua mão estava em chamas, seu corpo estava em chamas. Seu canhão de mão estava ardendo. O primeiro tiro foi um tremendo susto, um caminho de fumaça foi feito depois da bala ter seguido seu trajeto. Os corpos de quatro decaídos desintegraram. Os gritos de protesto dos inimigos não combinaram muito com a retirada. As balas de fogo ainda voavam, iluminavam a noite como se o sol estivesse concentrado em cada um dos uivos das balas do canhão de mão. Um tremor no chão seguiu-se com vários outros decaídos desaparecendo em uma energia azul. Paulo estava com ela novamente, mas desta vez seu corpo todo emanava essa energia também, ele se lançou pra legião de inimigos que aos montes foram mortos, desaparecendo.
Lucas olhou pra trás e as pessoas já estavam correndo para os acampamentos em segurança, ele viu as próprias mãos e elas se apagaram. Respirou fundo novamente. "É assim que eu vou proteger as pessoas". Paulo estava acabando de voltar, ele tremia de excitação.
—Eu te vi queimando.
—Eu te vi eletrificado.
Um som soou no ar, uma nave decaída. "O que mais vocês..." Lucas e Paulo olharam não para a nave, mas para o que ela carregava. O que estava debaixo dela parecia um tipo de filhote de máquina, se tivessem alguma referência a mais, saberiam que parecia uma aranha. Quando caiu no chão num estrondo fazendo o tudo tremer por alguns metros que eles perceberam a magnitude. "Um tanque decaído".
O que mais parecia uma cabeça tinha o mesmo aspecto da nave, porém nas costas um enorme canhão. Debaixo dele duas caixas que pareciam ter as mesmas balas, em grandes quantidades, de lança granada. Três pernas de cada lado para se movimentar e a parte traseira da máquina tinha uma mini metralhadora. A cor marrom predominava em todo o aspecto da máquina, a não ser pela pintura pontual vermelha em várias partes dele. Uma mira vermelha apareceu direcionada a Lucas e Paulo.
— Corre — Os dois foram em direções diferentes enquanto o local de onde estavam surgiu uma cratera gigantesca. 
"Procurar fraquezas". Paulo descarregou o primeiro pente em toda a couraça do tanque que alguns passos de cada vez, enquanto balas de metralhadora e lança granadas azuis voavam em sua direção, virava-se para ele. "Diminuir locomoção, a torre do canhão não gira 360º". Recarregou o canhão de mão e descarregou em uma das pernas da frente. O material era resistente, mas não o bastante. O problema maior foi perceber segundos atrasado que o cano do canhão era 200º. 
Uma explosão. Vazio. O som volta.
— 'Bora — Paulo segurava sua mão. Ele acabou de ressuscitar. — 'to quase quebrando uma perna dele.
O tanque estava um pouco longe, mas permanecia a todo vapor. O campo de batalha parecia mais ferido, com mais fissuras e crateras no chão, Paulo demorou para conseguir tempo de ressuscitar o colega. 
Paulo correu, mas algumas balas da lança granada acertaram, ele rolou no chão e parou ao lado da perna do tanque. Desviou rapidamente antes de ser esmagado. Descarregou mais um pente de bala em outra perna do tanque.
"Cadê aquele poder quando eu preciso dele". A voz de Aurora dentro de sua cabeça "Não temos luz o bastante. Ainda". Ele se agachou e sacou a sniper. Os cinco tiros consecutivos quebraram uma das pernas do tanque, revelando uma estrutura de metal bem construída e funcional para movimento. A máquina pareceu tombar e a parte superior da cabeça revelou um pescoço mecânico com estruturas que deviam abastecer o tanque inteiro. 
— Atira ali.
Os dois sobreviventes descarregaram suas armas e quando parecia que iriam destruir o interior do tanque, ele soltou uma onda de choque que lançou Lucas e Paulo longe.
— Mas não temos um momento de paz nesse caralho.
O tanque mirou em Paulo com o canhão. Mas então o céu da noite foi cortado por outra energia azul vindo do alto. Acertou o tanque em cheio, lançando peças, pernas e destroços pelos ares. Ainda mais monstruoso que sua chegada, sua derrota fez os decaídos debandarem. Alguns segundos depois da poeira baixar. Lucas e Paulo começaram a ouvir um farfalhar e uma voz.
— Eu acho que foi um bom lançamento — Grave e cansada, alguém vinha em passos calmos.
Um fantasma surgiu dos destroços do tanque. 
— Vocês estão bem, guardiões? — Ele estendeu a mão para Lucas. Tinha a pele negra, cabelos castanhos escuros. Sua armadura parecia estar em outro nível de proteção e resistência. Verde com símbolo de lobo no torço. E uma capa, uma capa com um símbolo de dois lobos. "Bela capa".
— Guardião? — ele aceitou a mão. 
— Recém-chegados, pelo visto. Sejam bem-vindos. — Ele olhava em volta feliz — Fizeram um bom trabalho.
O fantasma que surgiu da explosão do tanque converteu-se em um homem ainda mais alto daquele que falava. A armadura era num tom branco e vermelho. O capacete era dividido ao meio com a cor branca e vermelha. Os chifres do capacete localizavam-se no ponto esquerdo e direito. Eram de madeira.
—Vocês viram? Viram isso? — Ele gritava.
— Fui eu que te lancei Shaxx. — Foi como o homem com armadura de lobo se dirigiu ao grandalhão.
— Minha energia de arco também conta, você sabe disso não é, Saladino? — As pegadas no chão pareciam tremer tudo. Ele continuava a gritar. "Ou é seu tom de voz"
— Poderiam nos explicar o que está acontecendo? — Paulo acabava de ficar de pé, mas não largou o fuzil de assalto. 
Todos se olharam por alguns segundos para o homem que poderia chamar-se Shaxx explodir numa gargalhada. 
— Sejam bem-vindos a última cidade segura guardiões. — Ele colocou as mãos na cintura.
— De novo isso. Guardiões?
— Você é um guardião. Nós somos guardiões. Guardiões da última cidade e da humanidade. Da esperança. Esse é nosso propósito. — Disse o homem chamado Saladino.
Propósito. É isso. É um começo.
 





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Palamon - Terra - Faraday e Lucas - PT. 3

? - Terra - Lucas

? - Terra, A batalha dos Seis Frontes - Todos