? - Antiga Russia - ?
Ele piscava no escuro. Mal teve tempo de seus olhos se acostumarem quando uma luz o cobriu. A retina se contraiu e a mão levantou para proteger o rosto, mas o membro quase não respondeu. Acostumando à luz ele percebeu algo no ar. Era uma forma flutuante, esférica em seu centro, mas com algumas peças com formas geométricas em volta. Ela girava, mas sempre encontrava o eixo. Um olho único mostrava ser a fonte da luz que o iluminava. Eles se observaram por alguns segundos antes de, o surpreendendo, a esfera começar a falar.
— Olá. — Achou que era uma voz em sua mente, mas era de fato... aquilo.
— Olá. — Ele estava deitado no que parecia ser uma cama improvisada, ela rangia quando se mexia.
Tentou se levantar. Seus ossos começaram a estralar com os movimentos. Era como se seus músculos e ossos estivessem com vários micro fragmentos de vidro que se esfarelavam enquanto ele se movia.
— Calma, você acabou de acordar de um longo sono. — A forma sobrevoava sobre ele — Eu sou um fantasma, na verdade, sou seu fantasma agora.
Ele ignorou e permaneceu movendo-se para acabar com a sensação de que seus ossos iriam se quebrar e seus músculos terem alguma distensão. Quando finalmente ficou de pé, sentiu-se pleno.
— Onde estamos?
— Essa... — O intitulado fantasma baixou seu único olho. — é uma pergunta muito difícil de responder.
— Como assim? — O Fantasma girou e a luz iluminara todo o local. A ausência de outra luz era justificável. Estavam dentro de um local que media no máximo 5x5 sem janelas ou qualquer acesso.
Estavam em algum tipo de bunker, o rodopio do fantasma revelava comida enlatada há muito estragada ao lado esquerdo e uma pilha de livros. Ao seu lado direito havia uma porta enferrujada. No centro dela, também enferrujado, uma válvula para destrancá-la.
Dera um passo pra frente, acabou puxando o pano da cama derrubando um livro grande. O eco do metal reverberou tudo em volta. Abaixou-se e pegou o livro. Nele havia uma página marcada. O rolar das páginas, várias histórias no que parecia diversos livros dentro de apenas um. Ele parou na página marcada, a leitura falava de um homem que foi renomeado como Paulo.
— Paulo. — Repetiu para si mesmo.
— Seu nome? — O fantasma olhou o livro que agora o nomeado Paulo estava lendo. — Esse livro é deveras antigo.
— Pa-u-lo — Repetiu para si saboreando as sílabas em sua boca. — Gostei...
Paulo foi ao fundo da sala e deixou o livro com os outros, num misto de respeito e cordialidade. Ao lado da porta havia uma arma, uma escopeta em tonalidade cinza, pois os anos haviam tornado assim.
— Isso vai nos ajudar. — O fantasma jogou sua luz na arma — Está carregada, vamos esperar que atire.
— Como entrou aqui?
— O Cano da pia logo ali. — O balançar do fantasma apontou para um dos cantos onde Paulo não havia olhado.
Havia uma louça tão mais preta que a escopeta que quase não se distinguia do cenário. O cano debaixo estava quebrado e parecia a abertura de onde o fantasma havia saído. Paulo colocara a escopeta em uma trava de sua roupa que ficava em suas costas. Tentou girar a válvula, ela quebrou em suas mãos.
— Tente chutá-la. — A sugestão do fantasma parecia dizer que ele já havia visto fazerem antes.
Paulo não precisou juntar muita força.
O som mais uma vez reverberou a sua volta. Mas o que não parecia o local em si respondeu lá fora. A escopeta fora sacada e o fantasma ficou a poucos centímetros do ombro de Paulo. O corredor ia para a direita e para a esquerda, todo local estava enferrujado. Manchas negras nas paredes e do teto descia um líquido que escorria no chão formando uma enorme poça.
Era impossível não fazer barulho, mas Paulo ainda assim tentou ir calmamente pelo caminho que lhe pareceu melhor. A escopeta carregada em suas mãos lhe davam a sensação de segurança. Mais um barulho gutural. Estava mais de perto, entretanto o som parecia ter a origem na parte de cima dele. Alguns metros depois uma escada um pouco duvidosa. Alguns degraus estavam quebrados, outros oxidados e vermelhos de ferrugem. Paulo se sentia a coisa mais pesada do mundo. O barulho era de arrepiar, mas a luz começou a aparecer.
Seguindo o caminho da luz, o fantasma desapareceu.
— Não se preocupe, eu ainda estou aqui. Apenas fica de olho. — A voz era de preocupação, aparentemente aquele drone sabia o que o esperava, mas estava com medo de falar.
A escopeta engatilhada.
A luz foi obstruída por algo. Algo grande. Algo monstruoso.
— São os decaídos...
— São o que... — O berro gutural foi seguido da revelação feita pela luz. Um ser com quatro olhos, quatro braços e uma espada em dois deles. Fora que o que parecia era que os braços de baixo não eram orgânicos.
O tempo de reação precisou ser rápido, pois o monstro correu em direção a Paulo sem se preocupar com o que ele tinha em mãos. O primeiro tiro da escopeta resvalou o corpo do inimigo, mas não o impediu de continuar correndo. O local fechado fez o som do tiro ser ensurdecedor, fazendo Paulo errar o próximo tiro. Então o decaído estava colado nele. A primeira espada passou pelo seu peito, sangue foi cuspido na cara do monstro. Paulo por alguns segundo pôde ver nos quatro olhos um receio. Logo em seguida a outra lamina passou em sua barriga o que fez perder as forças das mãos e largar a escopeta. Algo escorreu da barriga de Paulo. Ele observou a criatura de mais perto. O crânio dela era alargado em horizontal, a bocarra cheia de dentes pontudos, e sua vestimenta parecia feita de trapos, mas não seu equipamento, ele parecia de primeira. Paulo sentia um frio terrível, mas com a força que lhe restou aplicou um soco na caixa torácica do inimigo, um barulho por dentro do Decaído soou e ele derramou sangue em sua própria armadura, um sangue azul e um cheiro agridoce sobrepujou o ar.
O mundo começou a dar voltas, o decaído caiu para trás, Paulo caiu ao lado de sua escopeta. Percebeu que suas tripas estavam no chão. A vista de um dos olhos estava escura, mas a mão de Paulo encontrou o cabo da escopeta. E exaurindo ao máximo, deu um tiro desajeitado no decaído. Desta vez ele guinchou e gritou, metade da barriga tinha desaparecido e o sangue se espalhou para todos os lados.
Enquanto a consciência se esvaia, Paulo pensava ao menos... fiz ... alguma coisa.
Paulo piscava no escuro.
— Acordado? — O fantasma lançou uma luz nele.
— Eu... estou. — Ele tocava nos locais onde a lâmina do inimigo tinha transpassado.
— É uma das nossas vantagens. Eu consigo lhe trazer de volta a vida ou mesmo te curar.
— Me... — Ele olhou para as próprias mãos — Eu sinto que aquele soco no peito dele foi forte. — Ele olhou o corpo já apodrecendo do inimigo.
— Você tem mais força do que imagina.
Paulo levantou-se e pegou novamente a escopeta. Respirou fundo e olhou o chão onde tinha morrido. Depois os olhos pousaram no corpo do inimigo. Permaneceu assim por alguns minutos. A criatura não se comunicou nem tentou fazer nenhum contato, apenas o atacou desenfreado. Porém ele não fez diferente. Ele apenas respondeu com mais raiva.
— Paulo? — O fantasma girou. — Está tudo bem?
— Paulo? — O fantasma girou. — Está tudo bem?
Respirou fundo.
— Está... está sim. — Foi em direção no que antes era luz, mas agora tinha um pouco menos.
Descobriu que já era tarde. Voltar a vida demorava bastante, a luz parecia mais intensa. Olhou para o horizonte de um sol se ponto, as nuvens estavam pintadas com um amarelo e azul escuro. O perfume do vento se misturava ao tempo gelado. Estava aprisionado em um navio, encalhado em uma praia enorme. A direita da sua visão havia uma estrutura que parecia um esqueleto de um armazém. A esquerda uma elevação seguida de uma montanha, seguia caminho por uma estrada asfaltada, porém da sua visão conseguia ver a natureza tomando conta de tudo.
Um barulho atrás, Paulo rodopiou na ponta dos pés e engatilhou a escopeta.
— Calma meu parceiro! — Era um rapaz de cabelos longos encaracolados e barbicha — Eu não sou seu inimigo não, eu tenho apenas dois braços... — Então ele estreitou os olhos. — Se bem que você me parece eles.
Paulo olhou para sua própria mão. Ela era azul.
— Ele é um desperto da terra. — O fantasma de Paulo saiu e apontou para o rapaz.
Paulo se olhou rapidamente em um vidro quebrado na cabine do navio. Ele viu olhos azuis e cabelos vermelho vivo. A pele era azul claro. Desperto.
— Há, você também tem um desses — Outro fantasma.
— Aurora? — O fantasma de Paulo disse.
— Soltre? — A outra fantasma respondeu.
Os drones começaram a dançar no ar. Paulo sem entender, mas sem abaixar a guarda.
— Meu nome é Lucas, aparentemente estávamos em cabines distintas, ouvi o barulho todo, mas não conseguia sair. — Os olhos grandes castanhos e uma aparência jovem fazia Paulo querer confiar nele.
— Meu nome é Paulo. Você leu o mesmo livro que eu aparentemente, vi seu nome lá — Ele apertou a mão do rapaz. — Sabe o que está acontecendo aqui?
— Não mais do que você. — Ele apontou para um canhão de mão na cintura — Mas tenho isso que me traz certo conforto.
— Nós temos que voltar para cidade — Disse Soltre, drone de Paulo — A cidade. Vocês vão entender melhor lá.
— Como chegamos lá?
— De nave — Aurora, fantasma de Lucas calculou — Menos de um dia. Agora andando...
— Temos um longo caminho pela frente então — Disse Paulo. — Pra qual direção?
— Leste — Aurora apontou — Naquela direção e desapareceu.
— Então vamos — Disse Soltre e desapareceu também.
Lucas andou e admirou o horizonte. Paulo fez o mesmo.
— Ahn... — Ele coçou o queixo — Como que nós descemos daqui?
— Pois é...

Muito top
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