? - Antiga Rússia - Lucas e Paulo PT 3

O chão começou a tremer, árvores a balançar, pássaros a voar e, em algum local da montanha, houve deslizamento de neve que se transformou em avalanche. Quando Lucas e Paulo olharam em volta em um dia que alcançou seu pico mais quente ao meio-dia, notaram no céu o que parecia um redemoinho roxo. Ele cresceu na horizontal, preenchendo alguns vazios em azul e, por fim, tudo começou a tremer novamente. Os sobreviventes não tiveram tempo de questionar, pois uma nave monstruosa surgiu no exato ponto do fenômeno. Ela tomou a direção contrária de onde estaria o Viajante. Enquanto passava, deixou naves menores que pareciam estar em uma espécie de patrulha. Paulo e Lucas perderam as contas de quantas eram. 
— Decaídos. — o desperto fechou os punhos. 
—Você viu uma pintura ao lado da nave maior? Ela era azul. 
Uma das naves patrulha começou a se aproximar de onde eles estavam. Conseguiram a tempo se esconder e passar despercebidos. A ponta da nave era abobadada, na parte superior algumas bandeirinhas menores azuis, na parte frontal vários círculos que pareciam ser janelas. Na parte inferior, quatro tubos que saiam de duas esferas, com certeza seriam duas armas preparadas para atirar. Mais abaixo, dois propulsores. O restante parecia uma nave central de igreja. Várias garras desceram de aberturas circulares e os decaídos surgiram de lá. 
Os miseráveis, eles tinham quatro braços e andavam com lanças, se matassem algum inimigo, ao que parecia, "viravam" Decaídos. O processo de mudança de patente infligia um ritual de mutilação. Os braços de baixo eram amputados e ele ganhava uma arma. Agora os Vândalos já haviam sido Miseráveis e Decaídos, tinham armas de alta cadência ou snipers. Seus dois braços de cima normais e os braços inferiores eram mecânicos, alocados no coto dos braços inferiores. O que os dois sobreviventes não tinham entendido até aquele momento era como eles ficavam maiores a cada patente. 
Um total de dez estavam em campo, oito Miseráveis e dois Vândalos, observavam o local curiosos, conversando com sua linguagem esquisita. A neve parecia algo curioso a eles, cutucando pequenas florações em volta que estavam cobertas e, em seguida, estranhando que se dispersava como poeira. A nave então voltou a subir e avançou em direção de onde a maior havia ido. A clareira não tinha uma vegetação forte, mas era um campo bom pra se pousar. A neve rapidamente se dispersou devido os propulsores, mostrando um campo verde claro. 
"Quem está acostumado a emboscar, não está acostumado a ser emboscado." Um tiro de sniper. Um corpo de Vândalo no chão.
— Aqui só trabalhamos com headshot. — O eco da voz de Lucas não deixava claro de onde vinha.
Paulo descia a colina com as mãos nuas. Os gritos de protesto e excitação dos decaídos o deixaram animado. Um miserável ergueu a lança e correu em sua direção. Desviando rapidamente aplicou um soco em seu rosto. No punho fechado Paulo pôde sentir o crânio do inimigo esfarelar. Outros dois Miseráveis o atacaram, uma lança passou ao lado da cabeça e a outra acertou seu braço. Corte razoável na armadura. Lucas atirou no outro Vândalo do grupo, porém o mesmo já estava alerta e conseguiu se camuflar.
— Porra.
O desperto rolou pra trás enquanto mais duas lanças se juntavam e formavam quatro tentando lhe acertar. Puxou seu fuzil de assalto das costas e acertou o primeiro decaído que lhe cortou. Os tiros fizeram uma fileira de buracos da barriga até o tórax. O miserável caiu pra trás. O cérebro do outro decaído começou a computar a perda de mais um colega quando mais um tiro do alto da montanha passou pela sua cabeça. O cheiro agridoce subiu no ar depois dela explodir. O corpo se contorceu por completo e então caiu. 
Os outros dois decaídos avançaram em Paulo com suas lanças levantadas. Um tentou lhe acertar as pernas. Facilmente evitado. O segundo tentou estocar. O desperto se defendeu com o corpo do fuzil de assalto. Um estampido. Som de bexiga esvaziando. Em um movimento que parecia combinado, avançou e fez o decaído de escudo. 
— Eu já ouvi isso antes. — Um tiro explodiu o peito do Miserável.
Ainda usando o corpo do decaído como escudo, o desperto alvejou o local do barulho. Um grito de protesto e raiva surgiu e então a camuflagem do inimigo se desfez. O decaído tentou correr para mata densa da floresta, porém não antes da sniper lhe atravessar um tiro. 
Sobraram quatro decaídos. Porém, um som no ar. A nave que os tinha deixado estava voltando.
— Paulo, volta agora, vai ter muito mais do que eu posso te ajudar daqui. — Grita Lucas da montanha.
— Então desce logo daí.
A nave mirou nas árvores e duas balas azuis alvejaram o local onde Lucas estava um segundo antes. Caindo e rolando pelo chão, ele colocou a sniper nas costas e sacou o canhão de mão. Parou a poucos metros do colega sobrevivente.
A nave planou um pouco atrás dos inimigos sobressalentes, que uivaram e desapareceram. Mais duas balas da nave, mas desta vez em direção à Paulo. Fizeram dois buracos no chão.
— Retirada... — foi então que uma sombra surgiu.
Um capitão normalmente era um decaído com dois braços normais, dois braços mecânicos equipado com uma sniper ou um fuzil de assalto que tinha balas rastreadoras. Armadura de proteção melhorada, resistindo mais à batalha. Uma capa enorme vermelha exibia um símbolo que Lucas e Paulo entenderam como se fosse um tipo de crânio de animal e um símbolo de representação de facções. Eles já haviam enfrentado algo do tipo. Era preciso um esforço a mais para matá-lo sem morrer. 
Porém, o que apareceu a frente foi algo bem maior que o capitão. O capitão poderia medir até dois metros de altura. Este parecia ter pelo menos quatro metros, melhor que o capitão em tudo. A armadura era em um tom azul claro cobrindo o corpo todo, o capacete, só seus olhos a mostra, o restante totalmente coberto. A capa estava lá, esta era azul com outro símbolo. A nave mais uma vez levantou voo.
— O que deram pra esse maldito comer? — Paulo gritou sorrindo. 
— Ele tem uma sniper. — Lucas começou a atirar. 
Seja pelo acaso do destino ou sorte, balas acertaram dois dos quatro olhos do decaído gigante. Ele gritou de dor, mas não recuou. O sangue escorreu pelo capacete. Ele apontou a sniper em Lucas e acertou seu braço. O tiro não foi o bastante para arrancar fora, mas o deslocou e queimou. 
Paulo recarregou e alvejou seu alvo. As balas resvalaram na armadura, porém não fizeram nem cócegas. O decaído gigante começou a andar em direção ao desperto. A sombra por cima dele tampava o sol. Dava para ouvir a terra sendo pisoteada. O arconte resmungou algo em sua língua e o trouxe a poucos centímetros de seu rosto. Ele pôde sentir o cheiro do hálito dele.
— Vai pro inferno, seu merda— Ele pegou um dos quatro dedos que seguravam seu pescoço e puxou com toda força que tinha, ouvindo um estralo forte e o dedo seguindo em uma direção que não deveria.
O decaído gritou. O eco atravessando as montanhas. Com a raiva nítida em seus olhos, bateu com Paulo no chão. Não satisfeito, o lançou em uma árvore. Um galho quebrado transpassou seu ombro esquerdo. Outro grito, desta vez do desperto.
Lucas passou o canhão de mão para a mão boa e o descarregou, mas desta vez sem sorte. As balas não surtiram efeito algum na armadura do inimigo. Mais um tiro de sniper, mas Lucas desviou com agilidade. O sobrevivente humano pulou e ficou a poucos metros do amigo.
Paulo quebrou o galho com a mão livre e caiu de pé. Sangue escorreu pelo ferimento, mas o galho permanecia ali. Tamparia a maior parte do sangramento e por hora, isso bastava. 
A mira da sniper recaiu sobre o desperto. Alvejado na perna. Ele caiu sobre um dos joelhos. O próximo tiro iria pegá-lo certeiro. Paulo observou os dois olhos restantes no rosto do enorme decaído. 
—Me mata, caralho — falou entredentes.
O tiro foi desferido. Porém Lucas pulou na frente. A capa tinha agora um buraco com bordas pretas. Fumaça saia dela. Em suas mãos, os intestinos estavam em um misto de fumaça e carbonização. 
— Essa não conta — Paulo notou o sangue caindo por debaixo do capacete.
A cólera assumiu.
— Aurora, ajuda ele. — o desperto estava cego de fúria. — Agora sou eu e você.
Levantando-se, ele avançou na direção do decaído. E antes que o gigante pudesse perceber, Paulo segurava sua sniper. Num movimento, acertou o braço ferido do desperto. Outro urro, que fez o sobrevivente puxar a arma com ainda mais força. O decaído levantou a perna e bateu no chão o mais forte que conseguiu. O impacto fez o que se propôs, Paulo voo. 
Mas um sorriso de olhos cansados estava em seus lábios. A arma do inimigo estava em sua mão. 
— Vamos ver do que você é feito sem essa bosta.
O desperto ergueu o braço bom e investiu um soco direto na barriga. O decaído não conseguiu esquivar. Gritando de frustração, tentou agarrar o sobrevivente, sem sucesso. Um soco agora na costela. O decaído desferiu quatro socos. Eles passaram, voaram e acertaram o vento. No chão, as gotas de sangue de ambos se misturavam a neve, montanhas pequenas, antes brancas, estavam carmesins. 
Lucas estava sendo curado por Aurora e observava a briga. Algo na postura de Paulo demonstrava que estava sedento por quebrar cada parte do grandalhão. 
O desperto investiu, mas o inimigo defendeu. Três dos socos do decaído passaram, mas o quarto acertou. O capacete alcançou voo e Paulo cuspiu sangue para cima. Uma chuva vermelha coloriu o ar e seu rosto. "A armadura não vai resistir mais" disse Soutre em sua mente "E nem você". Outro murro, costela. Um barulho. Um movimento singelo, mas percebeu que o inimigo recuou. 
A bala de sniper acertou a cabeça do gigante, quebrando um pedaço do capacete. A atenção não foi tirada de cima do sobrevivente lutador. Lucas mirou mais uma vez. Desferiu todos os outros tiros. 
— Eu gostava da capa, seu filho da puta. 
Desta vez foi o capacete do arconte que voo. Mais dois socos voaram sem acertar, mas os outros dois de metal foram rápidos demais. Paulo tinha metade da visão, um pedaço da armadura do braço faltando e o braço que o galho atravessou estava inteiro na cor roxa. O pedaço de arvore em seu corpo estava vermelho e em sua volta vazava sangue copiosamente. 
Ignorando a dor, o desperto investiu mais dois socos. Um na barriga do decaído e outro na costela. 
Lucas recarregou e alvejou a cabeça do decaído novamente. A cabeça resistiu bem, mas o sniper pode ver o sangue derramar por pequenos buracos.
O arconte começou a urrar de dor. Uma das mãos se voltou para a costela e outra protegia a cabeça. 
— Quebrei algo seu arrombado? — foi o que Paulo tentou articular, mas o que Lucas ouviu foi "kibrei ago siu arromado?"
O sobrevivente lutador correu e aplicou um soco no joelho do inimigo. O decaído caiu sobre ele. Em seguida uma sequência de socos. Cabeça, barriga, costela e braços. O desperto sentia dor a cada impacto. Todo seu corpo gritava para interromper aquilo. A sensação era lancinante, mas não era maior do que o prazer de ver o decaído gigante sangrar. 
Um raio azul avançou pelo corpo do desperto. 
A princípio Lucas achou que era invenção da sua cabeça. Então outro. 
"Um golpe do decaído?" pensou "Não, está sendo gerado... do Paulo" disse Aurora curiosa.
Por fim um gancho. De baixo para cima. Acertou em cheio o queixo do decaído. O berro de Paulo fez os pássaros próximos voarem, o punho brilhou intensamente e afundou a mandíbula do decaído dentro da própria cabeça. Explodiu sangue pra todo lado. Rosto e armadura de Paulo misturava seu sangue e o sangue arconte. 
Um sorriso torto macabro mostrou-se. O corpo inerte caiu convulsionando. Paulo por sua vez caiu pra trás. 
Lucas foi até o amigo caído, preocupado. A comparação do tamanho do corpo do decaído era monstruosa com os dois no chão. Ao ver o rosto do sobrevivente, tentava sorrir.
— Vencemos. — Lucas disse.
— Vencemos. — O que saiu foi "henquemos". Soutre sobrevoo e lançou uma áurea sobre ele. 
Paulo adormeceu antes que seu fantasma pudesse curá-lo. O cansaço era incurável. 
— Ele vai dormir bastante. — A voz carregada de preocupação de Soutre fez o coração de Lucas doer. — Mas ele vai ficar bem.
O sniper andou e começou a observar o decaído que acabaram de matar. O símbolo na capa em suas costas, a mandíbula amassada e a fumaça que desprendia de seu corpo. Cortou a capa do arconte, dobrou e colocou juntou com a outra que tinha guardado em uma bolsa. Olhando em volta pensando em quanto tempo passou desde o começo do tiroteio, respirou fundo. Foi pegar lenha para fogueira. 
— Descansa desperto — Lucas olha com tristeza e alegria, o que seria dele sem o amigo, ou vice-versa. — Quatro a quatro.









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