Tebaida - Retiro, Solidão - Texto Ato I
As lágrimas servem para lubrificar a superfície do olho e para eliminar substâncias irritantes e tóxicas. Mas o mais importante seja o fato de provocarem nos outros uma resposta imediata de ajuda, empatia e conforto. Não que esse fosse o caso, porque não era. A sensação de solidão é absurda. Desamparo de si. Era um fim que se instalava bem a frente dela. Embora o enterro tivera sido a demasiado tempo.
O pôr-do-sol estava próximo, se é que ali mesmo já não havia chegado. A casa não era tão perto. Ficaria ali? O lugar não parecia inóspito. E por mais estranho que o fosse, começou a brincar. Esconde-Esconde, idade das pessoas que morreram e até se assustar com a coruja. Os anjos, manifestações da pureza e da benevolência do céu, são mencionados nos Antigo e Novo Testamento e no Alcorão e lá estavam eles, a chamando. Só os conseguia ver com o rabo dos olhos. Vozes começaram a ser ouvidas, mas tinha certeza que não era dos anjos. Vinham de um dos túmulos. Mãos espectrais tateavam o ar chamando-a atenção. Se os pais estivessem ali eles teriam “protegido”, mas ela não estava, estava?
Escuridão. Ela não era nossa primeira realidade? A lanterna em sua mão não lhe dava visão total, mas os sons lhe eram bem fortes. Uma menina chorando de canto. Uma pá sendo usada para enterrar algo. E algo se movia às sombras, à espreita. Quando o mundo tomou cor de novo estava no cemitério e começou a se questionar se aquilo não fora um sonho. Os anjos chegaram e levaram-na.
O lar é onde se encontra o coração. Quando adentraram a casa a mente dela foi se perdendo ao ouvir um som familiar de dentro da cozinha. A porta a chamava, quase que convidando para abrir. O conhecido e o desconhecido. Quando que pela fresta reconheceu aquela imagem que havia muito desaparecido de sua mente. Se não estivesse tão perdida em pensar que aquilo era uma brincadeira de sua mente, uma peça que queria lhe pregar, teria percebido os movimentos estranhos que estava fazendo sobre a panela, o cheiro que dentro dela emanava.
Quando adentrou a cozinha, sua mãe virou-se alegre. Como se jamais tivesse se ausentado de seu papel pediu para ela preparar a mesa que seu pai iria chegar do trabalho cansado e iria querer comer. Ela abraçou a mãe, mas logo a mãe dispensou, achando estranha a atitude da filha. A presença que entrou na casa foi diferente da que entrou na cozinha. Ela era rasteira e a muitos dias estava com fome. Muita fome.
A menina viu o pai chegar. Era como num sonho, eles estavam lá com ela novamente. O abraço não foi repelido como o da mãe, ele parecia mais gostar do que ela. Gostava até de mais na verdade. A mãe os serviu e devia ser sopa de tomate, de que outra maneira ela seria tão vermelha? O pai nem tocou na comida, a olhava comer com satisfação. A mãe só tinha olhos para o pai, mas não de ternura e sim de atenção, parecia preocupada ou algo.
Quando ele avançou sobre ela ficou com medo. Se a mãe não o tivesse impedido o que ele poderia ter feito? Eles não eram seus pais, não eram mesmo. Ela correu, os anjos reapareceram e a levaram de volta. O cemitério. Tinha que deixar aquilo enterrado.
Bom dia, boa tarde ou boa noite querido leitor. Hoje mostrei a vocês o texto o qual nos inspirou o primeiro ato da peça Tebaida, Sf, Retiro, Solidão. O Rafael, meu amigo e colega artístico sempre me deu (e ainda me abre espaço) muito espaço para criar na minha cabeça as palavras certas. Fora que um livro emprestado por ele me inspirou a escrever assim. - Enfim, muito obrigado e até mais ver.
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